Paola Giometti , A Fera Intrínseca

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Paola Giometti nasceu em São Paulo, Capital, em 1983. É graduada em Biologia, mestre e doutoranda em Ciências. Colaborou com a Revista Mundo dos Super-heróis na edição 57 com uma matéria sobre o papel da mulher nos quadrinhos. Em eventos sobre a cultura nerd, Paola é cosplayer da personagem Lara Croft, sua heroína nos games e HQs desde a infância. Publicou o livro O Destino do Lobo e O Código das Águias da série Fábulas da Terra, além de ter participado das coletâneas literárias Xeque-mate, Horas Sombrias, Aquarela, Círculo do Medo, King Edgar Hotel, Legado de Sangue, Outrora e Sede, todas da Andross Editora. Paola não só participou com contos das coletâneas Fogo de Prometeu, Céus de Chumbo, Outrora, Sede como também foi a organizadora dessas antologias.

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Produção de utensílios de pedra, domínio do fogo e aquisição da linguagem; uma das conquistas fundamentais do homem primário adquiridas por entre os milhões de anos. E foi em decorrência desses conhecimentos que ele, o homem, passou a defender-se dos animais ou caçá-los, cozinhando seus alimentos, aquecendo-se ao fogo e disseminando a experiência entre gerações. A necessidade levou o homem a domesticar alguns animais. Temos como exemplo inicial os lobos; seres humanos e selvagens teriam vivido lado a lado durante um longo tempo, numa relação onde os animais forneciam mantimentos, prestavam serviços de transporte, serviam de estimação ou até para fins ornamentais. Como resultado da manipulação do homem sobre animais, podemos hoje, considerar por análises genéticas, os cães como descendentes dos lobos encontrados entre 15 e 36 mil anos atrás no oeste Europeu e Sibéria. É nessa ambientação fria, milenar e animalesca que conversamos com a escritora Paola Giometti; bióloga por formação, conduz um minucioso processo de pesquisa técnica antes de escrever suas fábulas, como em suas obras: “O Destino do Lobo”, “O Código das Águias” e o recente conto “A Inconfundível Canção”.

 

 Sotaques: fábulas, geralmente, possuem uma lição de moral ao final da narrativa; o que podemos extrair de “O Destino do Lobo e “O Código das Águias”?

 Paola Giometti: diferente das fábulas clássicas, onde a lição de moral é dirigida ao público infantil, esses dois livros possuem lições de moral mais voltadas para os jovens e adultos. O Destino do Lobo vai abordar a nossa responsabilidade como domesticador e a dependência dos cães por nós. O Código das Águias já vai questionar o quanto estamos dispostos a abandonar a nossa liberdade em prol de algo maior. A importância da amizade e da família, o respeito pelos que já foram, também são assuntos tratados paralelamente. 55

Sotaques: escreveu em primazia seu romance aos 11 anos de idade e, desde então, deixou por aí uma pilha de livros publicados. O que demonstra seu aprimoramento na escrita hoje?

Paola Giometti: meu aprimoramento na escrita se deve por conta do incansável exercício de leitura de inúmeros gêneros da literatura, bem como o devorar de livros que ensinam técnicas de escrita (como a importância das viradas nas histórias, personagens fortes etc) e roteirização para cinema. Essas práticas são ótimas parceiras do escritor. ~

Sotaques: como definiria a premissa da série “Fabulas da Terra”?

Paola Giometti: a série Fábulas da Terra traz três histórias independentes sobre diferentes animais selvagens (o lobo, a águia-dourada e o bisão-americano) e que também apresentam crossovers, pois um ambiente ou animal pode aparecer mais de uma vez em outro livro. Isso enriquece o universo criado e oferece ao leitor uma ideia de cronologia. Ao final dos livros, certamente o leitor terá ampliado o seu conhecimento sobre o reino animal, já que os comportamentos dos personagens, as descrições, são todas inspiradas no mundo selvagem real com uma pitada de fantasia.

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Sotaques: em “O Destino do Lobo”, por exemplo, alguns personagens possuem características bem marcantes. Há algum significado por trás dessas personalidades?

Paola Giometti: sim. Nesse livro, os lobos foram todos inspirados nos meus cachorros. Quem já teve muitos cães sabe que cada animal tem uma personalidade diferente. Em O Destino do Lobo temos lobos idosos e que melhor entendem as situações; lobos impetuosos e que não gostam de conversa; lobos curiosos e estabanados; lobos fortes e que inspiram respeito. No total, temos 8 lobos com características distintas.

 

Sotaques: no primeiro volume do “Fábulas da Terra”, em “O Destino do Lobo”, há um momento solene que é sobre como os lobos compreendem a hora da refeição. O que essa parte em específico significa a você?

Paola Giometti: na vida selvagem, os animais não desperdiçam comida e todos dependem direta ou indiretamente uns dos outros para sobreviverem. Na nossa sociedade o ato de comer quase virou uma atividade relacionada ao entretenimento e diversão, esquecendo- se que alguém teve que morrer para nos satisfazer. Acho que se todos pensássemos assim, talvez não houvesse desperdício. Na hora de comer, quase todos os animais fazem uma reverência ao alimento: eles abaixam a cabeça para pegá-lo. Não podemos esquecer que também somos animais, e esse ato também praticamos: nós abaixamos nossas cabeças na direção do prato.

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Sotaques: como funciona o processo de pesquisa e quanto seu conhecimento da ciência tem contribuído em suas obras?

Paola Giometti: o fato de ser da área científica me proporcionou um conhecimento de onde buscar as informações corretas e verdadeiras sobre os animais. A vantagem de ser bióloga me faz observadora, pois consigo melhor aproveitar o cenário com os fatores climáticos, vegetação e os relacionar com os comportamentos animais. Faço um levantamento de artigos científicos e vídeos na internet que sejam relacionados ao comportamento do animal que vou expor. Acredito que tentar usar a fantasia num modo mais próximo da realidade pode deixar a história mais atraente, rica em situações que vão fazer o leitor não se sentir enganado ou diante de uma história absurda e forçada.

Sotaques: logo na capa do livro lemos: “Com ilustrações da autora”. Qual a sensação de desenhar em seu próprio livro?

Paola Giometti: no início eu não estava muito segura de que isso era uma boa ideia, pois não sou profissional apesar de que conseguia fazer algumas coisas bonitas. Mas o Edson Rossatto, que é meu companheiro e também é escritor, me encorajou a seguir esse caminho e acabei indo fazer cursos de desenho em academias de arte. Minha ideia é sempre refazê- los a cada nova edição, pois assim sempre teremos um desenho mais aprimorado do que o da edição anterior. Sempre é um grande orgulho para o escritor também poder ilustrar o seu trabalho.

Sotaques: em “O Código das Águias”, o que constrói o sentido da falcoaria na visão das águias?

 Paola Giometti: o sentido que a falcoaria na visão das águias, em meu livro, é o abandono da liberdade por uma causa maior. O companheirismo e a fidelidade são importantes na falcoaria, pois uma águia, se descobre que está sem amarras, pode ir embora por livre e espontânea vontade. 57 Sotaques: não pude deixar de notar a exacerbada presença feminina em suas obras, tendo como exemplo Kushi, protagonista de “O Destino do Lobo” e Tuska do mesmo universo. Você se considera feminista? Paola Giometti: eu não me considero feminista, pois acredito que ser feminista é uma forma de discriminação de gênero, da mesma forma que o machista faz. A escolha de uma fêmea protagonista (Kushi) e de uma mentora (Tuska) foi pelo simples fato de que as mulheres têm uma sensibilidade para o espiritual maior do que os homens, além do que costumam ser mais preocupadas com seus filhotes e o destino deles.

Sotaques: o conto do filhote Julieta, no início de “A Inconfundível Canção”, nos deixa a questão: até quanto tempo aproximadamente um cão sente falta da mãe?

Paola Giometti: é inevitável que um filhote sinta muita falta de sua mãe pelo menos até o terceiro ou quarto mês de vida (no caso dos que são adotados). Ele associou o cheiro e a presença dela, a sua sobrevivência e completa dependência. Mas depois que ele percebe poder buscar seu alimento e se aventurar por aí, vai perdendo esse sentimento de dependência pela mãe e a tendência é se ligar no ser humano.

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Sotaques: Lara Croft e Supergirl; quando começou sua experiência cosplayer? Frequenta muitos eventos nerds?

 Paola Giometti: costumo ir a muitos eventos nerds e sempre vou de cosplay. Quando o Anime Friends nem era um evento conhecido, eu já frequentava. Ia de Jill Valentine do Resident Evil 1 e Mamba Negra, do Kill Bill. Mas a Lara Croft foi a minha heroína mais importante, pois me ajudou numa época em que eu me sentia um nada e passava por uma crise de depressão. Depois, o Edson me motivou a ser a Supergirl, desenvolvendo a roupa para mim, pois diziam que eu lembrava um pouco a atriz do seriado. Assisti a todos os episódios e acabei virando fã, afinal, a personagem é bem carismática.

Sotaques: o que você pode nos adiantar de lançamento seu nesse ano de 2017?

Paola Giometti: em agosto será lançado O Chamado dos Bisões: uma história que foi inspirada nas migrações familiares. Terá como protagonista um filhote de bisão que fica para trás durante uma jornada migratória. Como o livro se encontra em processo de edição, ainda não é possível contar muitos detalhes — apenas que haverá um forte crossover com os personagens de O Destino do Lobo.

Sotaques: nos dê três dicas de escrita.

Paola Giometti: 1- Leia muito o estilo literário que quer começar a escrever, pois é preciso aprender a falar a língua do seu público. 2- Estude livros como “Story” de Robert McKee; “A Jornada do Escritor” de Christopher Vogler e “O Poder do Mito” de Joseph Campbell. 3- Escrever com o coração é importante. No entanto, deve-se pensar no seguinte: o leitor irá comprar o seu livro, ler a sua história e tem que sair satisfeito. Se ele sentir que perdeu tempo com o seu livro, ele nunca irá indicá-lo a ninguém. Portanto, escrever só com o coração e intuição não basta. Tem que estruturar bem o texto e sair dos clichês.

 

Sotaques: organizou e participou de algumas coletâneas literárias da Editora Andross; qual a sensação de presenciar o interesse pela escrita através dos escritores inscritos no projeto?

Paola Giometti: a parte que mais gosto no processo de produção dos livros da Andross é a ajuda e orientação aos autores que se inscreveram. Não são apenas os melhores contos a serem selecionados. Nós damos a oportunidade de o autor aprender e crescer com críticas e sugestões, reescrevendo o seu conto ou produzindo um novo. Oriento cada autor, quando necessário, e o resultado muitas vezes é surpreendente. Eu me sinto realizada por poder mediar a primeira publicação de muitos autores. Estar num livro é como deixar a sua marca para a posteridade.

 

| Pablo Santos

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