À VENDA

(Denise Hudson)

Eu venderei minha bicicleta

Meus enfeites pessoais

Meus livros, meus quadros

E outras coisas essenciais

Eu venderei os meus jogos

Meu cinzeiro e meu rim

Eu não terei mais direito de posse

Sobre mim

Mas isso é modo de falar

Nunca irei a leilão

O que farão as pessoas

Com uma poeta na mão?

Imagem: Marlus Alvarenga

 Durante o passar dos anos, na história da Literatura e das Artes, a escrita e o eu-lírico feminino vêm trabalhando arduamente para se inserir, com autoridade de fala, nos meios aos quais se endereçam. Afinal, “o que farão as pessoas com uma poeta na mão?”. Qual o peso e a quantia de verdade que carregam e valem as artes feitas por mulheres? A quem são capazes de ferir e incomodar? Mas ora, não é aí, nesse estranhamento, em que se encontra, principalmente, a essência da arte como arte?

O formalista russo Viktor Chklovski trazia à tona a necessidade da criação de um estranhamento gerado ao seu público, para a arte se estabelecer como tal. O desmoronamento de um universo em que se tem como habitual e comum a apreensão, compreensão e recebimento da visão de mundo e da própria arte como um sistema fechado e eternamente cíclico seria o lugar ideal para se reconstruir uma dimensão nova do visível ao senso estético, dando ao seu objeto um horizonte e devir amplo em suas possibilidades de recepção e interpretação. Não é aí que mora, então, o por tanto tempo calado lugar de fala feminino? Os novos e bons ares que as pequenas e grandes revoluções trazem não nos impõem o olhar do que é novo, urgente e necessário? Aí está a voz da mulher.

Com as mudanças drásticas e a decadência do governo e política brasileira, principalmente no que diz respeito às artes e ao assistencialismo feminino, as mulheres, em suas respostas, conscientização e lutas, têm rompido de forma independente e decisiva as barreiras e correntes que às prendiam a quaisquer que fossem os lugares premeditadamente a elas destinado, e têm alcançado espaços determinantes para sua autonomia artística. Sejam eles espaços dentro de um microcosmos, em um segmento e estilo musical ou literário x, tanto quanto no microcosmos da música e literatura brasileiras e universais, como um todo.

No que diz respeito ao elo entre literatura e música, cada vez mais o discurso feminino vem ocupado lugar de projeção e as mulheres se destacado como artistas escritoras, compositoras, intérpretes, instrumentistas, cantoras, ou, mais ainda, como todas essas ao mesmo tempo. Para um Brasil e para um mundo com manchas negras em suas histórias, onde mulheres poderiam ter suas artes publicadas apenas se se utilizassem de pseudônimos masculinos, a revolução é grande e faz barulho. A voz feminina na arte é a voz que ecoa as tão esperadas libertações e a igualdade de gênero, ainda que tardias.

Trazendo o olhar para a capital do país, em nossa Brasília já são grandes e crescentes os números de festivais de música e literatura femininos, que passam por critério rígido, quanto ao tema, em sua curadoria, e não lança mão de ter em sua equipe apenas mulheres – cis, trans, heterossexuais, homossexuais, periféricas, pretas, brancas, pardas, travestis… mulheres. – desde a parte que diz respeito à comunicação, assessoria, direção, fotografia, elaboração, rodagem, etc., até às bandas com liderança feminina e autoral. Brasília-menina tem suas inúmeras curvas e não passaria pelos tempos sem inspirar tantas artistas incríveis como as que temos. 

Um firme processo de desconstrução de uma sociedade com bases patriarcais vem se estabelecendo e ele é realizado pela linha de frente de resistência que é a arte e que são suas artistas e combatentes mulheres, que tornam o movimento cada vez mais sólido e visível. As mudanças trazem com elas o estranhamento necessário a quem sempre se deitou eternamente em berço esplêndido e pouco entendeu sobre revoluções, e muito menos sobre as íntimas, que são requisitadas em todas as grandes transformações e em todos os grandes movimentos artísticos.

É chegado o tempo em que as poetas não mais precisarão ir a leilão, vender seus livros, bicicletas, sua voz ou o que quer que seja. O tesouro feminino é imensurável, revolucionário e a hora é agora.

Texto: Clara Telles

#sotaques#Revistaonline#arlequim13#brasil#portugal#brasilportugal🇧🇷🇵🇹#claricelispector

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s