Introdução ao Livro “Barioná, Filho do Trovão”

Escrever sobre Jean-Paul Sartre pode soar que serão tratados temas sobre filosofia e política, pode-se pensar que falar-se-á sobre o ateísmo militante desenvolvido por essa figura histórica, pode-se ainda dizer que se tratará de toda sua luta contra o cristianismo, ou melhor falando, contra uma cristandade que quer impor seu moralismo e sua crença a qualquer custo. Mas o que os grandes estudiosos de sua filosofia e de seus ideais guardam e pensam sobre uma pequena obra, pouco conhecida, mas que conseguiu chamar a atenção do mundo cristão, mais que sua grande obra filosófica? Que escrito é esse que se manteve tão pouco conhecido e que existem tão poucas traduções e que quase não se cita? Será que Sartre poderia ter se convertido à moral cristã, poderia ter sido derrubado o filósofo do existencialismo?

Jean-Paul Sartre (1905-1980), filósofo, novelista, dramaturgo e ativista político, grande personagem histórico, até hoje citado por muitos e sua filosofia tendo adeptos por todo o orbe. Em 1964 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, mas o grande pensador rechaçaria, explicando que nenhuma instituição pode ou tem o poder de mediar entre o homem e a cultura.

 Bem, caro leitor, não é a finalidade deste escrito fazer uma discussão ou meramente dar opinião sobre a recusa do recebimento de tal Prêmio. Um opúsculo do autor chamado “Barioná – Filho do trovão” é para onde remará as letras deste artigo e onde findará o pensamento de quem o escreve.

“Barioná – Filho do trovão” é uma pequena obra do grande filósofo existencialista, escrita durante um período mais que dramático para o filósofo: sua prisão e seu enclausuramento em um campo de concentração alemão no ano de 1940. Sartre se deparará com a realidade obscura da humanidade e ao mesmo tempo com a luz da esperança de poder ser humano em todos os seus quesitos, ele viverá seus dias de luta entre a desesperança humana de quem só enxerga a morte e a esperança inquebrantável de uma humanidade que pode superar tudo a luz de uma fé em si mesma.

Todos devem pensar que se trata de uma obra sentimentalista para esquentar os corações e diluir o sofrimento humano sofrido no campo de concentração, mas não.  O próprio autor assim explica a sua obra em um discurso do dia 10 de outubro de 1962:

“ O fato de que eu tenha tomado o tema da mitologia cristã, não significa que a direção do meu pensamento tenha mudado nem sequer por um momento no meu cativeiro. Se trata simplesmente, de acordo com os sacerdotes prisioneiros, de encontrar um tema que pudesse fazer realidade, essa Noite de Natal, a união mais ampla possível entre cristão e não crentes.”

Esta obra teatral do pensador e filósofo francês, é a única que pode-se considerar de pensamento cristão. Ele, convicto do seu ateísmo, foi capaz de captar e transmitir a importância deste momento fantástico da história da humanidade e da salvação, que é o nascimento do Cristo.

 Quase perdida essa obra, ela foi resgatada por um professor espanhol, José Angél Agejas, que a descobriu no anonimato, graças a um pequeno extrato que caiu nas suas mãos por casualidade. O professor descobriu uma obra familiar, cheia de simplicidade, humana e muito bonita, que não se encontrava entre os vários escritos do autor. Uma vez descoberta, Sartre reconheceu a sua autoria e permitiu a publicação.

            Esse opúsculo teatral vai narrar a história de Barioná, governador de Bethaur – povoado longe de Belém 25 léguas – , homem que tem a sua dignidade fundada sobre a desesperança. Este recebe, habitualmente, a visita do superintendente romano Lelius  para dar andamento e prestar contas sobre sua atividades ao Império Romano. Mas a última visita de Lelius é o cumulo do desespero para Barioná: este irá desejar a destruição do seu povoado, impedindo o relevo geracional. Mas neste momento de desesperança aparece em uma gruta de Belém, Jesus Cristo, sinal de toda a esperança.

Uma obra que abriu as portas para Sartre no campo das artes e da sensibilidade humana, da esperança contra toda desesperança, da alegria que é resistente contra toda força da maldade e da escuridão. Com esta representação, Sartre se descobre, não só como autor dramático, mas faz com que ela seja uma obra de comunhão de pessoas, ele dirige seu pensamento para a grandeza do homem em relação aos demais.

Feita essa pequena introdução, que não demonstra tudo o que a riqueza das palavras e do pensamento de Sartre nessa obra trás, é necessário abrir o pensamento e não querer rotular o autor em um único campo da cultura, da arte e da filosofia, pois ele foi além, ele falou do ser humano e sua transcendência frente a vida. Caro leitor, falar de Sartre, nunca será somente o existencialismo da desesperança, mas também será do existencialismo da esperança de ser um ser humano. É necessário refletir e colocar em prática diariamente a esperança na humanidade, que diante de tantas crises e dificuldades, acha sempre o caminho e a luz da esperança e da reconstrução de si própria.

Texto: Wenderson Machado

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