Ecos de Clarices: A hora da Estrela vai chegar


Mais um minuto
E tudo o que sonhou vai ser verdade
Não há no mundo
Quem não entenda a sua felicidade
Que possa dizer com certeza
Que o lugar é seu
Que é de quem nasceu pra brilhar

Uh, a hora da estrela vai chegar
Uh, agora ninguém vai duvidar
Não hoje, não mais
Nem nunca, jamais

(A hora da Estrela,John Ulhoa para Pato Fu)

Um marco na divisão da literatura moderna e contemporânea brasileira, com linguagem simples e ao mesmo tempo complexa em montagem e estrutura, para lidar com um assunto delicado e extremamente atual: a fome, a xenofobia contra nordestinos em São Paulo – e no sul-sudeste em geral – e a opressão social pungente, como quando foi lançada a obra literária. Assim, A Hora da Estrela (1977), última obra da aclamada escritora Clarice Lispector (1920-1977), que faria seu centenário nesse terrível ano de 2020, é de uma urgência e crueza que dói como faca na carne. Uma pulsação, como queria que fosse tratada sua obra, carregada de hibridismo de gêneros e contexto social, com requintes de best seller. E é assim, como refúgio de obra de despedida, que o mundo recebe essa narrativa que viria a ser objeto de estudo e de contemplação de tantos.

Lembro-me como se fosse essa tarde quente de hoje, mas na adolescência, quando terminei a primeira leitura dessa obra ao final dos meus dezesseis, para a escola, por volta de vinte passadiços anos atrás. Silêncio. Se um dia Deus vier à terra haverá silêncio grande. O silêncio é tal que nem o pensamento pensa. Assim, a digressão dos pensamentos de Macabéa, personagem principal da obra, seguem um fluxo da vida a morte. A infância de abusos, a chance da vida na cidade grande. A lástima do apagamento social. O pouco-muito-quase-nada que servia para sobrevivência da mulher oprimida e julgada, a todo tempo. Um copo de café com bastante açúcar e a poética por trás de um amor imaginário com cheiro de cachorro quente. Um batom vermelho doado pela amiga como quase mandinga, que roubaria o pseudonamorado, Olímpico de Jesus. O rádio, que toca música e informação. A datilografia que não funcionava mas a fome, iminente. O tarot, que mostrava a morte marcada na controvérsia da leitura tanatográfica, às avessas da retirante. A dor, o sangue, o loiro de olhos azuis: a estrela. A vontade de vomitar luz. A Estrela de Cinema que se esvai. Isso tudo em um vórtice linguístico direto, rude e ainda na óptica do odioso e infeliz narrador-não-narrador Rodrigo S.M. que, embebido de si, julga e intitula nossa heroína. Muito sofrimento. É um soco no estômago inesperado. O dialogismo intenso da narrativa com o espectador já demonstrava o forte poder que esta tinha para se converter com excelência, em outras mídias. Mesmo não sendo a obra mais densa de Clarice Lispector, A hora da Estrela reverbera até hoje como um espectro de intensidade na história da literatura do Brasil.

Em 1985, sob a direção brilhante de Suzana Amaral (falecida esse ano aos 88 anos, com a causa da morte mantida em segredo de família), o cinema nacional imprimia novos aspectos no desafio de traduzir a grandiosidade de Clarice para as telas. A tradução cinêmica ganhou duas estatuetas no Festival de Berlim e a atriz Marcelia Cartaxo um Urso de Prata de melhor atriz pela sua expressiva e dolorida Macabéa.

(Rascunhos originais de Clarice Lispector, dispostos na edição de 2017 de A Hora da Estrela, Editora Rocco.)

O filme ganhou espaço na mídia brasileira e internacional como uma excelente adaptação, até hoje colocada no hall das grandes direções e adaptações de obras nacionais. Suzana tomou a liberdade de instituir uma ode à personagem, deixando de lado a narratologia masculina de Rodrigo S.M., o que beneficiou como um todo a percepção da imagem e das atuações extremamente sensíveis e, muitas vezes, quase tácteis. Há ainda a essência permanente de um deus ex machina na personagem de Madame Carlota (mais uma belíssima atuação de Fernanda Montenegro), a exótica e exagerada cartomante, que gera um estranhamento proposital, selando o torto destino final, belo e poético.

Em 2007, a banda mineira Pato Fu, formada pelo casal Fernanda Takai (voz e composições) e John Ulhoa (cordas e composições) lança em seu álbum Daqui pro Futuro. Um álbum cheio de experiências sonoras e um cover da banda gótica britânica Siouxsie and the Banshees (Cities and Dust), os mineiros nos presenteiam com a canção A hora da Estrela. Nela, na voz tenra e doce de Takai, a dureza da obra aparece nos versos. Ela esta pronta pra mudar a sua vida pra sempre, escreve Ulhoa, com sensibilidade de entender os processos imaginativos da personagem. Com as movimentações para o centenário da escritora, muitos artigos, textos inéditos e adaptações como forma de homenagear a obra como um todo tem surgido. Em 2018 e 2019 a obra ganhou destaque em adaptações para o teatro, inclusive uma em formato de musical repleto de contextos atuais, mostrando a atemporalidade do texto.

O feminismo da voz narrativa e nas protagonistas clariceanas ainda é forte nas discursões de gênero e poder na literatura atual. Porém, esses escritos também reverberam para outras formas de arte produzida por mulheres, como a música. Novas compositoras cantoras, como Salma Jô (banda Carne Doce, Goiânia, Brasil) espelham suas escritas, dentre muitas influências, nas obras de Clarice. De fato, quando lemos os versos críticos Pois é meus amigos, fudeu /Ninguém teve culpa, não deu /Alguém sempre acaba perdendo /E às vezes até merecendo e aprendendo /E até sai vencendo /É só se esforçar (De Graça, Carne Doce. Álbum Interior, 2020), notamos claramente um eco desse criticismo avassalador, presente em obras reflexivas e polêmicas como A paixão segundo G.H. (LISPECTOR, Clarice. 1964). Em outra canção contemporânea, ouvimos o lamento ébrio Cuidado, paixão /A mulher do mercado falou/ Quando bem distraída/ Eu quase esbarrei no corredor/ Achei tudo tão caro/ Mas voltei com um chocolatinho pra você (…) /Me confundi quando ‘cê disse tchau /Eu entendi te amo /Now it’s too late baby, it’s too late/ Te amo te amo te amo tchau tchau tchau… / Eu te amo, mas isso é tchau (Cuidado, Paixão, Letrux. Álbum Aos Prantos, 2020). Ali, é como se ouvíssemos Ana, a dona de casa reflexiva do conto Amor, da compilação Laços de Família (LISPECTOR, 1960). Assim, muitas outras artes atuais seguem cantando e refletindo esses ecos.

No nosso percurso de vida, nos nossos dias de horas perigosas e complexas, quantas G.Hs, Anas e Macabéas vemos, vivemos e experienciamos nas nossas vidas? É nesse perigo que a arte move seus lugares. Um brinde e um cigarro aceso pela vidaobra centenária e, cada vez mais viva e vívida de Clarice Lispector. Obrigado. Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.

Texto: Marlus Alvarenga

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