Património Construído

Nesta edição, de modo especial, a sessão de fotografias será substituída pela entrevista sobre o um importante trabalho desenvolvido para preservação do patrimônio religioso edificado na região metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais. A capital mineira, edificada em fins do século XIX sobre o arraial do Curral d’El Rey, está situada em uma região de povoação datada do início do século XVIII e cercada de cidades históricas (Caeté, Sabará, Santa Luzia e Raposos).  
Atenta à importância das edificações religiosas da Arquidiocese de Belo Horizonte, composta pela capital e outras 27 cidades do entorno, a professora Dra. Gláucia Nolasco de Almeida Mello, do Departamento de Engenharia Civil da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), desenvolveu e coordena o projeto de extensão universitária denominado “Patrimônio Construído”. O projeto ainda tem parceria da Universidade Federal de Minas Gerais, e lá é coordenado pela professora Dra. Cynara Fiedler Bremer, da Escola de Arquitetura, vinculada ao Departamento de Tecnologia do Design, da Arquitetura e do Urbanismo, e do Memorial da Arquidiocese de Belo Horizonte. Participam também alunos dos cursos de Arquitetura e Urbanismo e Engenharia Civil das duas universidades.
Para conhecer mais sobre essa iniciativa, vamos entrevistar as professoras Gláucia e Cynara, idealizadoras do projeto.

Hebert: Como surgiu a ideia do projeto e em que ele consiste?

Gláucia: A professora Cynara e eu já nos conhecíamos desde os tempos de estudantes universitárias e a conversa sobre um trabalho em conjunto fluiu naturalmente. Como eu leciono disciplinas na área de estruturas de concreto e alvenaria estrutural no curso de Engenharia Civil da PUC Minas, e dentro do conteúdo de uma delas um dos assuntos abordados é a manifestação de patologias em edificações e a professora Cynara também leciona esse assunto sobre manifestações patológicas em edificações contemporâneas e históricas na graduação do curso de arquitetura e também no programa PACPS/UFMG, veio a proposta de trabalharmos com análise de manifestações patológicas em edificações. Ao discutirmos sobre o assunto, pensamos, por que não trabalharmos com edificações históricas já que ambas são admiradoras das edificações antigas? Na época, em 2017, a paróquia da Igreja de Nossa Senhora da Piedade, no distrito de Piedade do Paraopeba, em Brumadinho/MG, estava realizando uma mobilização em prol da restauração da igreja. Assim decidimos abraçar a causa da preservação do patrimônio histórico, e ajudar a divulgar a importância de se conservar os nossos patrimônios. Essa é uma área muito importante e ainda pouco discutida dentro dos cursos de graduação. Hoje o projeto tem duas vertentes, a primeira relacionada especialmente à visitação e levantamento das condições de conservação e estruturais da igreja. E a segunda relacionada à divulgação nas escolas de ensino fundamental e médio, onde realizamos oficinas com os alunos para conscientização da importância das edificações históricas.

Hebert:  Quando o projeto foi implementado e quais os primeiros trabalhos?

Cynara: O projeto foi implementado e oficializado nas duas universidades em 2017 com a primeira igreja, Nossa Senhora da Piedade, em Piedade do Paraopeba, um distrito de Brumadinho a 35km de Belo Horizonte. O projeto consiste basicamente em fazer um levantamento histórico da construção e o estudo da sua relação com o entorno, quais os principais processos construtivos da época, se houve reformas ao longo dos anos e como foram essas reformas e, por fim, qual o estado atual da igreja. São analisados os aspectos estruturais e de conservação da igreja.

Hebert: Quais os objetivos e resultados já alcançados?

Gláucia: O projeto possui como objetivo principal a colaboração na preservação das edificações históricas da região metropolitana de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais. Os relatórios técnicos fornecidos às paróquias e ao Memorial da Arquidiocese de Belo Horizonte, auxiliam às tomadas de decisões relacionadas às ações de intervenção. Além disso, quando necessário, também desenvolvemos os projetos complementares necessários para a reabilitação do imóvel, como por exemplo, projetos de drenagem. Ainda, realizamos ampla divulgação do projeto, das ações e, também, da importância em se preservar as edificações históricas, em mídias sociais e presencialmente com oficinas, palestras e participação em eventos. Já pudemos contribuir com algumas ações de intervenção, hoje o projeto é conhecido e respeitado dentro das universidades participantes e temos alcançado grande interesse e envolvimento dos alunos em nossa missão. Um  resultado que considero bastante interessante é o envolvimento dos alunos no projeto, eles trazem soluções, se dispõem a ajudar no desenvolvimento dos projetos, colaboram imensamente na realização das oficinas nas escolas e diversos deles querem trabalhar como voluntários no projeto.

Profª. Dra. Cynara Bremer e Profª. Dra. Gláucia Nolasco

Hebert: Como são realizadas as visitas técnicas e estudos de campo?

Cynara: As visitas são agendadas previamente com o pároco da igreja e com a equipe de estudantes das duas instituições. São levados a campo diversos equipamentos para coleta de dados, que são analisados posteriormente e condensados em um relatório que é entregue ao Memorial. Já foram publicados artigos científicos sobre os resultados do projeto, os estudantes participaram de congressos no Brasil e agora em outubro vamos apresentar um estudo de caso em um congresso internacional no Canadá.

Hebert: E como é a relação entre o projeto e a Arquidiocese de Belo Horizonte e as paróquias/comunidades? E em relação aos órgãos de proteção ao patrimônio cultural?

Gláucia: Hoje nós temos uma parceria com o Memorial da Arquidiocese de Belo Horizonte, representado pelo arquiteto Hebert. Ele é o nosso contato direto e responsável pela conexão do projeto com as paróquias. Hoje, antes de realizarmos uma visita consultamos o Memorial para que identifiquem aquelas igrejas que necessitam de projeto de intervenção ou que já estejam com um processo de intervenção em andamento. Assim, podemos colaborar mais assertivamente, fornecendo as informações técnicas e, quando necessário, os projetos complementares. Todas as ações executadas durante as visitas são coordenadas pelas professoras para que sejam respeitadas as exigências dos órgãos protetores. E, todos os trâmites e contatos para a aprovação dos projetos junto aos órgãos protetores ficam sob a responsabilidade do Memorial da Arquidiocese.

Hebert: Para os profissionais que trabalham na área do patrimônio cultural é normal que aconteçam descobertas que alterem o conhecimento estabelecido sobre aquele objeto em estudo. Durante os estudos houve algum fato ou descoberta interessante?

Cynara: Sim. Na primeira igreja visitada, em Piedade do Paraopeba, por exemplo, descobrimos no interior da igreja locais onde foram enterradas pessoas importantes na época. Em Raposos descobrimos que parte de uma parede de abobe, da época da construção original, ainda existia. São muito ricas essas experiências e descobertas.

Hebert: Quais edificações foram trabalhadas e quais as relações dessas construções com Portugal? O sistema construtivo utilizado na antiga colônia, em especial na Capitania das Minas do Ouro, é aquele mesmo utilizado nas construções da metrópole no século XVIII?

Gláucia: Até o momento já visitamos oito igrejas tombadas na região metropolitana de Belo Horizonte, com contribuições efetivas em projeto de intervenção de três delas: Nossa Senhora de Piedade em Piedade do Paraopeba/Brumadinho, Nossa Senhora da Conceição em Raposos e Nossa Senhora do Rosário em Caeté.

A arquitetura brasileira sofreu grande influência portuguesa. O modelo de arquitetura das igrejas visitadas é o tradicional da arquitetura religiosa luso-brasileira, muito difundido no Brasil a partir das últimas décadas do século XVII que permaneceu durante o século XVIII. Não, os sistemas construtivos são diferenciados, mais simples, próprios da época das circunstâncias em nosso país e, também, da localização. A maioria dessas igrejas foram construídas em vilarejos ou dentro de terras particulares, as fazendas.

Hebert: As edificações trabalhadas são de quais épocas e quais as características construtivas?

Gláucia e Cynara: As igrejas são dos séculos XVII, XVIII e XIX, exemplares da arquitetura colonial brasileira. O sistema construtivo consiste em um formato alongado, geralmente composto por dois blocos retangulares, um que abriga a nave e outro a capela-mor. Algumas possuem um corredor lateral seguindo o alinhamento das torres sineiras como é o caso da igreja Nossa Senhora da Conceição em Raposos. As igrejas de Raposos e de Piedade do Paraopeba apresentam a mesma disposição onde se têm as torres mais altas, com a nave em altura intermediária e a capela-mor mais baixa que a nave. Os materiais empregados na época também diferem muito dos que foram utilizados a partir do século XX. Apesar de muitas delas terem sofrido intervenções ao longo dos anos, algumas ainda mantêm alguns elementos originais como paredes de adobe, pau-a-pique e pedra.

Hebert: Dentre essas edificações e estudos realizados, qual foi a mais desafiadora? Alguma conquista ou realização do projeto que gostaria de destacar?

Gláucia: Eu considero mais desafiador o primeiro levantamento realizado, talvez por termos escolhido uma igreja que apresentava problemas diversos. Mas, também, considero a obra prima do projeto de extensão, pois, realizamos diversas visitas à igreja Nossa Senhora da Piedade e ainda hoje acompanhamos o processo de intervenção no qual a igreja tem passado. Para mim todos os resultados e ações merecem destaque, acho que hoje ele já está consolidado e vem sendo divulgado em diversas mídias das duas universidades envolvidas.

Cynara: Concordo com a Gláucia, a primeira foi mais desafiadora por ter muitas necessidades. Além disso, tem um significado especial para nós porque foi a primeira igreja analisada, lá foi onde tivemos as primeiras ideias de como montar nossa metodologia. Recentemente, nosso projeto foi divulgado em mídias da PUC-Minas e foi selecionado em um edital da UFMG para ser projetado por uma semana na fachada do Espaço do Conhecimento da UFMG, em Belo Horizonte.

Hebert: Quais as expectativas em relação ao projeto e qual a importância da divulgação deste estudo?

Cynara: Esperamos que este projeto continue tocando as pessoas sobre a importância de se preservar o patrimônio. Em uma oficina voltada para o ensino fundamental pudemos sentir o envolvimento das crianças, elas responderam muito bem ao que foi passado a elas e saímos de lá com a sensação de dever cumprido: conseguimos plantar sementinhas. A importância desse estudo é exatamente isso: despertar nas pessoas o desejo de preservar as nossas memórias, o nosso patrimônio e passar tudo isso para as gerações mais novas.

Gláucia: Concordo com a professora Cynara, espero que o projeto continue plantando sementes não só nos jovens que nos ouvem em palestras, lives e oficinas, mas, também, nos alunos destas universidades. Que eles entendam a importância de se colaborar com a sociedade, que compreendam a importância das construções antigas e que mesmo em uma metrópole temos condições de contribuir para uma convivência amigável entre o passado e presente.

Texto: Hebert Júnior

sotaques#Revistaonline#arlequim13#Homemportuguês#brasil#portugal#brasilportugal🇧🇷🇵🇹#claricelispector

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s