Literatura e cinema: O prazer do proibido nas coleções íntimas de André em Lavoura Arcaica

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Meu sono, quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se colhe um pomo. E me lembrei que a gente sempre ouvia nos sermões do pai que os olhos são a candeia do corpo. E, se eles eram bons, é porque o corpo tinha luz. E se os olhos não eram limpos é que eles revelavam um corpo tenebroso. (NASSAR, Raduan. Lavoura Arcaica, 1975)

Embrulhado entre folhas, com os pés na terra e os pulmões cheios do cheiro de árvores molhadas: um convite de criança, um desejo de suspirar, em terra úmida, as sensações de um pueril corpo trêmulo. Seiva bruta de menino novo, em ninho familiar conservador, corria pelo corpo pueril de André (na tradução pro cinema, vivido pelo ator e diretor Selton Mello), em colapso, epilético. O personagem da obra Lavoura Arcaica (adaptação fílmica de 2001 executada por Luiz Fernando Carvalho em tradução coletiva do literário para o cinema, de obra homônima de Raduan Nassar, de 1975) é também um grande colecionador de itens peculiares dentro dessa montagem que marca, no percurso desde O Quatrilho (1995), uma nova estética no cinema brasileiro. É no meio da colônia relida e idealizada pelo autor que surge esse romance proibido, carnal, religioso, vulgar, visceral, incestuoso.

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O cinema literário – que compreende as montagens a partir de intercâmbios estéticos, traduções coletivas e relações dialógicas de obras literárias inspiradoras, como roteiros adaptados a partir de obras de artes anteriores  (segundo os pesquisadores Lemuel Gandara e Augusto Jr, da Universidade de Brasília) – surge com muita força sob a necessidade de expandir a literatura para além de outras mídias, excedendo o papel da escrita. É de tamanha relevância a construção dessas montagens, que existem categorias que focam em premiar esse tipo de roteiro (adaptado) de maneira específica, pelos riscos em se executar a obra da obra.

André, desde criança, é um colecionador nato de passagens ao seu redor, no mundo de quinquilharias coloniais esboçadas em rendas, tecidos brancos quarando ao sol, lamurias de mãe, de irmãs e irmãos. Em meio a um contexto conservador que envolve a família aos comandos do pai (Raul Cortez) em um cenário religioso extremista, onde a casa é o templo de manutenção desse espectro da família, o jovem cresce com amor e medo. Amor pela irmã Ana (Simone Spoladore) e medo pelo sentimento que se desenvolvera quando ambos, adolescentes, se aproximam dentro desse espaço proibido. A obra fílmica, tal qual o livro, é narrada sob a optica do jovem pródigo: e a narrativa religiosa está encharcando os lençóis de toda a trama, na pauta de que o bom filho a casa torna. André usa das metáforas mais variadas para suprir seu tesão pelo pecado incestuoso, vertendo de um linguagem rebuscada para poetizar sua narração: na coleção mais lúdica desse escuro poço: no pano murcho dessas flores, nessa orquídea amarrotada, neste par de ligas cor-de-rosa, nesta pulseira, neste berloque, nessas quinquilharias todas que eu sempre pegava com moedas roubadas do pai (fala de André a Pedro (Leonardo Medeiros), irmão mais velho, narrando sua coleção de objetos reunidos das prostitutas que frequentou). É a caixa de Pandora da família obtusa, tradicional e muda pelo carrasco do cristianismo terrível. A esperança (da salvação) é a última que morre.

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Em meio a essas perturbações – e uma fotografia colorizada em tons de sépia, outonais, delicada; mas ao mesmo tempo, nauseante – o observador André nos presenteia com um mundo familiar rodeado de poéticas sobre os alimentos que os circulam, tradicionalmente, pela casa. Desde o pão doce do “preferido da mãe” (Juliana Carneiro), a coalhada de pano, o vinho austero, os figos doces palpados e sexuais, os frutos suculentos do quintal, o mel da puberdade assistida, o pão da partilha na mesa posta ao lado do pai. Dulcifiquemo-nos! Café com leite, manteiga, carne assada, melões, melancias, uvas, laranjas, tangerinas, amoras… A orgia das amoras assassinas. O vermelho nas pontas dos dedos: sexo, dor, masturbação, epilepsia. Um azedar das faces desconfiadas e amarguradas dos irmãos à mesa. Azedo como os rumos dessa história. Em uma fábula que recria as antigas parábolas sobre homens famintos e reis excêntricos, nenhuma delas consegue exasperar o ar pesado das narrativas de André. Há o peso de ser e viver quem se é. E fugir não vai levar a nenhum lugar, pois a casa maculada o espera para a dança final.

Para ilustrar tal passagem, abaixo segue um poema oração que redigi, como forma de extrapolar a tela, a pele, o desejo – o pecado desejado:

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