A gastropoética no cinema brasileiro: Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

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Texto: Marlus Alvarenga |  @marlusalvarenga

Tanta vida pra viver

Tanta vida a se acabar

Com tanto pra se fazer

Com tanto pra se salvar (Geraldo Vandré, Réquiem para Matraga)

 

Seca. Sangue. Sertão. Sobrevivência. Brasil, Nordeste esverdeado. Futuro distópico (esperamos, veementemente): o fim do mundo em um dito fim de mundo. Execuções televisionadas em São Paulo. Um albergue sertanejo. “Eu vou fazer uma canção pra ela… uma canção singela, brasileira”. Para cantar depois do funeral. Com esses versos traçados no caminho da arte de Caetano Veloso, na canção Objeto não identificado, com interpretação de Gal Costa, que o épico cinematográfico Bacurau toma de assalto uma sala de cinema cheia, pela quarta semana consecutiva, entre suspiros e sustos, nos cinemas brasileiros. E essas experiências coletivas, construídas com o intuito de colher o máximo de detalhes para esse artigo ainda surpreendente, desde que os cinemas brasileiros pararam com atenção voltada para o interior do oeste pernambucano. O filme de Cannes. Um bang-bang? Não exatamente, mas tínhamos razão: o pássaro brabo que voa à noite nos prende em roteiro, sons, efeitos e atuações, do início ao fim. A poética marcada do povo no comando da sua vida simples. Lunga para presidente.

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Entre atentados, política de abusos de poder e clima de suspense, o filme mistura realidade com uma cidadela que resiste, no meio do esquecimento programado, ao futuro desenhado pela opressão. É nessa essencialidade técnica e estética que Bacurau desenvolve sua trama, que mostra desde ação, violência e mistérios inexplorados (que transformam o filme em algo ainda mais rico, por não entregar as respostas da fórmula, muitas vezes, americanizada do cinema de explosão), transformando os takes em passagens de coleções de falas engendradas entre a existência de regras internas, entre os convives do sítio e o caos, que busca sua redenção em quem, eticamente, seria o vilão. Um banquete de sangue para o bem de uma nação com valores deturpados.

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É nesse cenário que o alimento gastronômico ganha um valor inestimável na obra. Em primeiro momento, o personagem Plínio (Wilson Rabelo), professor da escola do povoado faz a triagem das cestas básicas entregue à população pelo estereotipado (porém muito real na interior do Brasil) prefeito Tony Jr (Thardelly Lima). Nessa realidade, os alimentos além de estarem em sua maioria com o prazo de validade vencido, tecendo crítica visível ao descaso dos políticos com os mais pobres, são oferecidos juntos a um remédio tarja preta inibidor de humor (a personagem Domingas (Sônia Braga), médica do vilarejo, alerta sobre os perigos do supositório), que é relacionado à ideia de controle populacional. Basicamente, a brilhante Domingas fala que o sucesso do remédio é devido ao brasileiro gostar de tomar o remédio na via anal, um popular tomar no ##, para ser mais objetivo. Todo brasileiro conhece a realidade da fome e da escassez no interior do Nordeste brasileiro e essa cena marca esse interlúdio, em uma prova de resistência aos controles de massa.

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Com a chegada do procurado – e aclamado – criminoso Lunga (Silvero Pereira, em atuação impecável), uma espécie de anti-herói que desmitifica a postura do salvador, relatando sua fome na cena anterior quando Pacote/ Acácio (Thomas Aquino) leva os corpos dos cidadãos de Bacurau chacinados pelos hunters americanos, guiados pelo alemão Michael (Udo Kier), através de algum tipo de comércio de mortes (daí a analogia à obra O Albergue (2005), de Eli Roth, onde pessoas pagam para matar como quiserem determinados biótipos e etnias de humanos, selecionadas pelo cliente, capturadas e levadas ao “hostel” para o abate sanguinário), que um banquete é servido ao personagem e seus capangas. A ânsia por comer e a postura violenta do personagem mostra sua falta de postura anunciada, que contrasta com a música erudita instrumental escolhida para marcar sua apresentação (Entre as Hostências, Nelson Ferreira), entre unhas pintadas, maquiagem e adereços. A polenta, o angu mole, servido para sorver os trabalhadores braçais antes do campo ou longas horas de uso da força, conota diretamente à uma preparação para o que virá: cavar uma cova, uma vala, matar ou morrer.

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É nessa necessidade urgente de se mostrarem brasis dentro de um país, que se constrói, na paisagem orgânica de um Pernambuco verde-empoeirado, a passagem que a personagem Domingas, em uma das cenas mais emblemáticas da obra, oferece um guisado ao armado e psicopata personagem Michael, montado em uma mesa posta, uma visível oferenda ao que estaria porvir: as mortes viscerais, a loucura e, por tudo que se faz, a salvação. O guisado é uma comida rústica e fortificante do interior do país, qual mistura proteína animal menos nobre com legumes e verduras, cozidos lentamente por muito tempo, com o máximo de extração de nutrientes e sabor. Ao lado, na cena, arroz branco, farinha de mandioca sobre uma toalha branca de renda e o suco de caju. Venha, é guisado, suco de caju, música americana… o texto marca na fala da personagem, que convida o inimigo a comer, com a audição, ao fundo da cena da canção True (Spandau Ballet), onde a montagem ganha um ar de diálogo geopoético, na entropia entre a comunicação da personagem com o idioma do estrangeiro. A comida, em posição de obra de arte, dilacerada pela tensão, ganha espaço marcante e decisivo para marcar as atuações como um marco nessa obra fílmica. A aclamada e importantíssima atriz e militante Sônia Braga, antes dirigida por Kleber Mendonça em Aquarius (2016), aqui mostra toda sua arte destemida, sem medo de aparecer envelhecida, fora dos padrões estéticos das “divas do cinema”, com uma relação lésbica abusiva e alcoólatra, fazendo uma ruptura com qualquer estereótipo anterior. Uma pessoa tão doce quando não bebe. E o pássaro segue cantando a noite. No Brasil de 2019, que se diga de passagem não é para amadores, Bacurau veio pra, viver, respirar e não ser extinto. É a nossa resistência na tela grande, refletida na vida de tantos outros que ainda insistem em colher da nossa diversidade o melhor, para colocar nossa luta diária no espaço necessário da sétima arte. Cabeças rolaram. O sangue foi lavado. A semente alucinógena na língua é a própria  necessidade de sair da realidade para ser mais real, as vezes.

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