Cultura Urbana com SOTAQUES

Hernanay

Noite de brisa morna e céu estrelado em uma viela modestamente iluminada da Terra Firme, bairro da periferia da cidade de Belém do Pará, Norte do Brasil. Bandeirolas “de São João” enfeitam a frente de estreitas casas de alvenaria e palafitas de madeira, apoiadas umas nas outras na ruazinha que serpenteia ao infinito. Crianças correm de um lado ao outro apreciando o movimento e soltando foguetinhos barulhentos. É início da “quadra junina” e a rua está cheia. Vai ter boi-bumbá, quadrilha, dança afro, forró, toadas, tecnomelody e comes e bebes.

Mãe Ray é quem comanda a festa. Moradora do bairro desde que aquelas ruas eram ainda pontes improvisadas de madeira, que se equilibravam sobre “igarapés” e alagados. Lá, ela assentou sua Casa de Mina a mais de 35 anos. E junto com a manifestação religiosa de matriz africana, ela também passou a organizar todo tipo de atividade cultural. Fundou “quadrilhas juninas” (grupos de danças típicas da chamada “quadra junina” no Brasil), organizou um grupo de dança afro chamado “Guerreiros de Obaluaê” e é muito conhecida por ser “botadora” boi-bumbá.

A história do folguedo do boi-bumbá no Brasil se perde nos séculos de nossa formação colonial, na presença negra e indígena e no desenvolvimento das culturas populares de grupos marginais. De norte a sul do país encontramos diversos tipos de “bois”, com características regionais próprias. No estado do Pará a brincadeira recebe o nome de “boi-bumba”, expressão que faz alusão provável à palavra africana bumba: “instrumento de percussão, tambor, que pode derivar do quicongo mbumba, bater”, como nos diz o folclorista Vicente Salles no livro “O negro na formação da sociedade paraense”. No caso de Mãe Ray, o folguedo adquire formas bem particularidades. Além do “boi”, propriamente dito, ela cria outros “bichos” como o “cavalo-bumbá”, o “gato-bumbá”, o “cachorro-bumbá” e o “pássaro-bumbá”.

Naquele dia a festa era dedicada ao “batizado” do Boi Atrevido, novo bumbá que passaria a ser administrado por dois jovens moradores do bairro, Kauê Silva e Josy Alves. Os dois haviam sido incumbidos por Mãe Ray de assumirem o folguedo e o colocarem na rua, para “fazer um trabalho atuante no bairro visando estabelecer uma relação sociocultural criativa e independente”, como me contou Kauê Silva. A honrosa e difícil missão foi dada aos dois jovens quando eles conheceram Mãe Ray durante as atividades da “Primeira Conferência Livre de Cultura da Terra Firme”, realizada em março de 2017. A conferência, por sua vez, foi organizada por vários grupos culturais e estudantis do bairro e buscava conectar novos e velhos agentes da cultura periférica em um projeto de afirmação política e cidadania.

Na noite do batizado do Boi Atrevido, além dos moradores do bairro, muitas pessoas de outras áreas estavam presentes; gentes de outras periferias e até mesmo algumas pessoas do “centro” de Belém. Presentes também indivíduos ligados a outros grupos de cultura, bois, grupos de dança, coletivos culturais, juventude atuante no movimento negro, movimento estudantil, hip hop, etc. Em suma, estava presente uma nova geração de ativistas culturais e políticos do bairro da Terra Firme, que nos últimos anos tem exercido a cidadania a partir de atuação em ocupações de escolas, em coletivos de ativistas, conectados nas redes sociais e na rua com os debates públicos, políticos e comportamentais ocorridos no Brasil dos últimos anos.

Aquele evento era representativo das formas que as culturas urbanas assumem em Belém do Pará no dias atuais. Nos últimos anos inúmeros movimentos de ocupação urbana, que envolvem ativismo cultural e ativismo político, ao mesmo tempo, se fizeram presentes na cidade. Alguns desses podem ser citados rapidamente, como é o caso do Batuque do Mercado de São Brás e da Batalha de São Brás, que ocorriam em um bairro não muito distante de onde o Boi Atrevido foi “batizado”.

O Batuque do Mercado de São Brás era realizado às sextas-feiras na Praça Floriano Peixoto (conhecida por todos apenas como Praça do Mercado de São Brás). Uma região marcada pela presença de muitos moradores de rua, violência urbana e exclusão, grande fluxo de pessoas e veículos, às proximidades do Terminal Rodoviário de Belém do Pará. O evento se caracterizava pela ocupação extraoficial da praça pública por artistas, músicos, poetas, intelectuais, etc., onde também ocorriam ocasionais apresentações de bois-bumbás, carimbós, hip hop, etc. E muitas vezes eram realizadas edições temáticas que rememoravam datas políticas importantes como, por exemplo, o “Batuque da Consciência Negra”, feito em parceria com o movimento negro às proximidades do 20 de Novembro, data que lembra a morte de Zumbi dos Palmares e simboliza a luta dos negros e negras pela liberdade no Brasil.

No mesmo espaço ocorria também um movimento ligado à cultura hip hop que ficou conhecido como Batalha de São Brás. Tratava-se da reunião de jovens MCs, acompanhados de uma caixa de som, que disputavam as melhores rimas a partir de temas escolhidos na hora. A Batalha de São Brás aos poucos passou a reunir uma juventude que vinha de vários bairros da periferia de Belém e tornou-se em poucos anos um dos pontos de encontro centrais da cultura hip hop dentro da cidade e da região.

Muitos desses movimentos mais cedo ou mais tarde sofreram algum tipo repressão por parte dos poderes oficiais, com a presença ostensiva da polícia militar e guardas municipais que quase sempre incompreendiam tais manifestações e as reprimiam. Isso causou um enfraquecimento de alguns desses eventos, tendo levado ao fim de parte deles, mas, ao mesmo tempo, levou à expansão e migração para outras áreas da cidade, assim como, ao surgimento e consolidação de vários artistas que hoje vivem da música, do rap e permanecem atuando em Belém e outras regiões.

Em todos esses eventos ocorria uma intervenção político-cultural efetiva no espaço urbano, uma espécie de re-apropriação da cidade, uma re-publicização do espaço público deteriorado. Efetivamente as culturas urbanas e as culturas populares e periféricas não desaparecem. Nem mesmo com a repressão policial, o preconceito e a estigmatização feita sobre elas pelo pensamento hegemônico. A cidade é tomada de tempos em tempos por velhos e novos movimentos político-culturais que se manifestam pela territorialização e re-territorialização da cidadania ou, melhor dizendo, pela “tomada” do espaço público, onde se diz, através de arte, de folguedos como o boi-bumbá, dos batuques, da música, do rap, dos corpos e performances “marginais”, que a cidade deve ser de todos e todas.

No caso de Belém do Pará, assim como ocorre em muitas outras cidade do Brasil, as culturas urbanas, e as culturas populares e periféricas em particular, reconstroem-se e se reconectam. Seja quando um grupo de hip hop se manifesta nas praças com suas batalhas de MCs, seja quando um batuque incorpora as demandas políticas da sociedade e relembra as grandes lutas populares. E, mais significativo ainda, quando uma Mãe de Casa de Mina da periferia da cidade, batiza um novo boi-bumbá, entrega-o a novos “amos”, bem mais jovens, que terão a tarefa de conectar gerações, manter a tradição ao mesmo tempo em que renovam as manifestações populares e as festas de rua da periferia.

Estabelece-se nesses casos um diálogo cada vez mais necessário entre o velho e o novo, a tradição e a globalidade, a luta pelo direita à cidade e à cidadania entre várias gerações das periferias urbanas do Brasil. As culturas urbanas são antes de tudo formas de uso cidadão da cidade. E, muitas vezes, alertam para as cisões sociais, para as marginalidades e desigualdades e dão voz aos sujeitos e sujeitas que de outra forma não se fariam ouvir pela cultura hegemônica.

 

Tony Leão da Costa.

Historiador, professor da Universidade do Estado do Pará, integrante do Boi Marronzinho e Boi da Terra (bairro da Terra Firme), ex-organizador do Batuque do Mercado de São Brás, ativista cultural em Belém do Pará.

|Hernany Fedasi

 

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