Fados com Sabor a Brasil

dddO Fado é a canção nacional portuguesa. Terá surgido no séc. XIX, entre prostitutas e marinheiros. Há também quem diga que veio dos árabes e o certo é que a música árabe e o fado têm muitas vezes sonoridades semelhantes. O que se sabe sem qualquer dúvida é que era uma canção das gentes simples, que versava sobre a vida do quotidiano, sobre os amores e desamores do dia-a-dia.

Foi com Amália Rodrigues que a poesia mais erudita chegou ao fado. Cantou Camões, Almada Negreiros, David Mourão-Ferreira, Ary dos Santos, entre muitos outros. E não tardou também a incluir no seu reportório poemas de autores brasileiros.  Temos, por exemplo, o belíssimo poema “Soledad” de Cecília Meireles, do qual não se conhece nenhum versão de estúdio, mas que Amália cantou várias vezes ao vivo e que os Amália Hoje interpretaram durante o projecto com o mesmo nome.

Houve vários outros fadistas que seguiram o exemplo de Amália e têm usado textos de poetas brasileiros para os seus fados. Temos até o “Fado Tropical”, escrito e interpretado por Chico Buarque. Esta partilha é mais um sinal da ligação forte que une os dois países; é mais um motivo para comunhão de culturas; é mais um laço que nos torna irmãos.

 

Poema: Canção

Autor: Cecília Meireles

Intérpretes: Amália Rodrigues, Dulce Pontes, Gonçalo Salgueiro, Maria de Fátima, etc.

Notas: Cantado pela primeira vez por Amália Rodrigues, musicado por Alain Oulmain,  alteraram o nome para “Naufrágio”.

 Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

– depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar

 

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre de meus dedos

colore as areias desertas.

 

O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio…

 

Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.

 

Depois, tudo estará perfeito;

praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas.

 

Poema: Mãe Preta

Autor: “Piratini” (Antônio Amábile)

Intérpretes: Maria da Conceição, Dulce Pontes, etc.

Notas: A versão original foi interpretada, pela primeira vez em Portugal, por Maria da Conceição. Entretanto, a letra foi censurada pelo regime e deixou de se ouvir. Em “Barco Negro”, Amália retoma a melodia com um novo poema de David Mourão-Ferreira, naquele que se tornaria um dos seus fados mais célebres.

 

Pele encarquilhada, carapinha branca,
gandola de renda caindo na anca,
embalando o berço do filho do sinhô,
que há pouco tempo a sinhá ganhou.

Era assim que Mãe Preta fazia.
Tratava todo o branco com muita alegria.
Enquanto na sanzala Pai João apanhava,
Mãe Preta mais uma lágrima enxugava.

Mãe Preta, Mãe Preta!

Enquanto a chibata batia no seu amor,
Mãe Preta embalava o filho branco do sinhô.

 

Poema: Saudades do Brasil em Portugal

Autor: Vinicius de Moraes

Intérpretes: Amália Rodrigues, Carminho, Kátia Guerreiro, etc.

Notas: Vinicius de Moraes compôs esta letra propositadamente para Amália Rodrigues, a qual a interpretou numa das suas famosas tertúlias em que o poeta brasileiro esteve presente.

 

O sal das minhas lágrimas de amor criou o mar
Que existe entre nós dois pra nos unir e separar
Pudesse eu te dizer a dor que dói dentro de mim
Que mói meu coração nesta paixão que não tem fim

Ausência tão cruel, saudade tão fatal!
Saudades do Brasil em Portugal!

Meu bem, sempre que ouvires um lamento
Crescer, desolador, na voz do vento,
Sou eu em solidão pensando em ti,
Chorando todo o tempo que perdi!

 

Poema:Fado Tropical

Autor: Chico Buarque e Ruy Guerra

Intérpretes: Chico Buarque, etc.

Notas: Poema que versa sobre a História brasileira,  sobre as raízes portuguesas do Brasil e sobre a relação entre os dois países.

 

Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril

Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

“Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo ( além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do alentejo
De quem numa bravata
Arrebata um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa”

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial”

| António Granja

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