Sete cartas a um jovem filósofo

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A obra “Sete cartas a um jovem filósofo” é um exemplo da filosofia dialogante de Agostinho da Silva. Uma filosofia sem mestres nem ídolos, alicerçada num pensamento aberto e universalista, que encara o outro, não como um inimigo ou um inferior, mas como alguém que nos ajuda a evoluir no mundo.

Agostinho da Silva postulava um pensamento com profundas raízes socráticas. Não é por acaso que a sua tese de doutoramento versava sobre as civilizações clássicas: existia nele uma pulsão criativa e inclusiva, que se materializava em diálogos abertos, sem pretensas verdades absolutas, estimulando a construção de novos saberes e conhecimentos.

Ao longo da sua vastíssima obra, esta visão universalista do que é o conhecimento foi tomando forma. Obras como “Diário de Alceste” ou “Sete cartas a um jovem filósofo” mostravam um pensador que, mais do que apontar os caminhos do saber, optava  por colocar novas perguntas que brotavam da dúvida, e abriam um leque de possibilidades que nos ajudavam a tomar decisões  no nosso quotidiano.

As grandes questões do mundo nascem  das tomadas de decisão ética do homem. São concretas e reais, e não abstrações mais ou menos inúteis, que formulamos  para nosso mero deleite intelectual.

Por exemplo, numa das sete cartas que envia aos jovens filósofos, o  autor critica a palavra tolerância. Diz ele, e com fundamentação, que a tolerância representa uma ideia diabólica travestida de celestial, já que tolerar alguém é suportá-lo e não respeitá-lo integralmente.

Noutra passagem das cartas defende que a vida é uma extraordinária aventura. E que vivemos num estado de semi-consciência, porque se tivéssemos plena consciência de todas as suas potencialidades, explodiamos.

Também descobrimos, neste livro, um Agostinho da Silva que pensa para além do seu meio intelectual. Noutra carta escreve ele que ser arrebatado pela arte, por qualquer forma artística implica ficar prisioneiro numa moldura, e ser excluído da vida, pois viver é quebrar todas as molduras e regressar à lei da Selva.

A relação mestre/discípulo convencional não convence Agostinho. Escreve ele que os seus discípulos, a existirem, são aqueles que discordam dele, porque aprenderam que o essencial é não se conformarem .

Publicadas em 1945, estas cartas traçam o perfil de um intelectual crítico com todos os intelectualismo e formalismos que amordaçavam a sociedade portuguesa. São estes dogmas que nos impedem de pensar e mudar, porque o pensamento e a ação são as duas faces da mesma moeda, reflexo um do outro.

O magnetismo desta obra reside em que, apesar de ser endereçada aos jovens filósofos, ela dirige-se para o mundo, para a polis, para a sociedade. À imagem da filosofia de Agostinho da Silva: uma filosofia que não se fechava nas estreitas salas da Universidade, mas que se abria ao outro, e a tudo aquilo que o outro trazia para a evolução do nosso pensamento.

João Castro

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