Os Maias, um clássico português

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O escritor italiano Italo Calvino dizia no famosíssimo ensaio  “Porque ler os clássicos” que um clássico é um livro ao qual sempre regressámos, descubrindo novos significados, novas releituras.Por outras palavras, um clássico é um livro inesgotável, uma obra aberta para sempre e, nessa ordem de ideias, “Os Maias” de Eça de Queiroz  são, inegavelmente, um clássico português com dimensão mundial .

Comecemos pelo fim. Carlos da Maia e o seu amigo João da  Ega, reencontram-se em Lisboa, depois de anos de separação, passeiam numa rua da cidade e falam, nostalgicamente,   da vida que falharam, dos sonhos de juventude que não cumpriram.

Subitamente vêem a afastar-se “O americano” – o eléctrico – e lançam-se numa corrida desenfreada para apanhá-lo. Fazem-no não por qualquer ideal renovado, pelo fogo de juventude que se reacende na sua alma, mas pela promessa de um “prato de paio com ervilhas”   que os aguarda, algures, na capital.

Esta cena final, tão cómica como trágica, é a súmula perfeita da narrativa. Nela condensam-se todas as contradições da geração de Eça que desejava, ardentemente, ser europeia, mas que se rendia, impotente, às circunstâncias quotidianas e à vidinha sem grandes aspirações, entre festa e festa, exibindo uma riqueza tão pretensiosa como efémera.

Há muitas razões para gostar de “Os Maias”. As minhas prendem-se com a ligação umbilical entre o prazer e o pecado, que percorre todo o romance – Carlos insiste em dormir com Maria Eduarda, mesmo depois de saber que ela é sua irmã, uma revelação que não o dissuade de quebrar um dos grandes tabus da sociedade portuguesa do século XIX, o incesto.

A procura do prazer transgressor funciona, para as personagens dos Maias, como a única felicidade possível. Carlos usa o seu consultório de médico recém formado para “receber”  a Condessa de Gouvarinho, Ega mascara-se de Mefistófeles num baile de máscaras para impressionar Raquel Cohen e afrontar o seu marido, o poeta Tomás de Alencar, o maestro Cruges, o roliço dandy Dâmaso Salcede ou o menino prodígio burguês Eusebiozinho, mergulham numa sucessão narcotizante de almoços e jantares ou idas furtivas a Sintra, com as suas espanholas, procurando esquecer a sua existência medíocre, repetitiva, absolutamente falhada.

Aqueles que não apreciam o romance, apontam-lhe como principal defeito o excessivo número de páginas. Uma crítica absurda : nenhum capítulo, nenhuma palavra é escrita em vão por Eça, toda a narrativa é uma riquíssima viagem arqueológica sobre uma sociedade, um país, uma forma de ser e estar cujas ressonâncias comportamentais chegaram até aos dias de  hoje.

Eça pertence à estirpe dos grandes génios do romance oitocentista. À linhagem nobre dos Balzac, dos Stendhal, dos Victor Hugo, dos Alexandre Dumas – pai e filho – dos Machado de Assis – que lia e admirava .

Harold Bloom, crítico literário norte – americano, coloca-o na restricta lista dos génios portugueses – ao lado de Camões e Fernando Pessoa – com dimensão global. Obras como “Os Maias”, “O crime do padre Amaro”, “A Cidade e as Serras” ou “O primo Basílio”, colectâneas de textos jornalísticos como as prodigiosa “Farpas”, escritas com Ramalho Ortigão ou magníficos contos como “Singularidades de uma rapariga loura”,  constituem um corpo literário abundante em quantidade e qualidade, invulgar em qualquer tempo e lugar.

Publicados em 1888, no Porto, “Os Maias” são um brilhante retrato dos vícios ancestrais que estão entranhados na identidade portuguesa. E são, claro está, um dos livros da minha vida.

Rui Marques

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