Gabriela, a musa da sensualidade luso-brasileira

Gabriela

Ouvia-se  o tema de abertura da novela “Gabriela” composto por Doryal Caymmi e cantado por Gal Costa, e os olhares perdiam-se no corpo sensual de Gabriela Cravo e Canela, personagem do romance de Jorge Amado e da novela que apaixonou o Brasil e Portugal. Exibida pela primeira vez no Brasil, em 1975, e em Portugal em 1977, esta novela foi um fenómeno de popularidade que marcou a História da Televisão.

Quando se estreou na televisão portuguesa, em 1977, Portugal estava a sair, lentamente, da Ditadura militar. A censura, o produto mais tenebroso dos 40 anos do Estado Novo de Salazar, caia abruptamente e, com ela, assistia-se a uma libertação dos costumes, a uma maior tolerância para com os prazeres da vida.

A televisão era o meio onde essa mutação dos usos e costumes, se fazia sentir mais profundamente. E, sublinhe-se, o impacto de Gabriela foi transversal a todas as classes sociais e meios universitários, de tal forma que uma investigadora portuguesa, Isabel Ferin Cunha, escreveu um trabalho universitário chamado ” A revolução de Gabriela, o ano de 1977 em Portugal”.

Publicado em 2002, pelo Instituto de Estudos jornalísticos da Universidade de Coimbra, este estudo comparava a agenda de visionamento da telenovela Gabriela em quatro jornais – Diário de Notícias, Diário de Lisboa, Expresso e O Jornal – com a agenda mais geral da cultura portuguesa. Nesta investigação concluía-se que temas como a igualdade de direitos, os direitos das mulheres, a violência doméstica ou a luta contra o autoritarismo, muito presentes na narrativa da novela, tornaram-se familiares aos portugueses, que os discutiam abertamente.

Também se conta que o  Presidente da República, Ramalho Eanes, em 1977, confessava, numa entrevista ao inglês Sunday Times, que via a “Gabriela”. Assinale-se, aliás, que a Assembleia da República chegou a suspender uma sessão para que os deputados pudessem assistir à série.

A euforia à volta de ” Gabriela” na década de 70, obriga-nos a um olhar mais aprofundado sobre este fenómeno televisivo e social. Afinal o que a tornava tão especial ?

Em primeiro lugar, o respeito que a telenovela revela  pelo original de Jorge Amado. Criada por Walter Durst e dirigida por Walter Avancini,destacam-se nela os diálogos ricos entre as personagens, os cenários bem construídos que recriam o interior da Baía em 1925, ou a luta de classes contra o Brasil dos coronéis.

Outro factor importante foi a excelência do elenco : de Sónia Braga no inesquecível papel de Gabriela a Armando Bónus que interpreta o turco Nacib, a Paulo Gracindo, que representava o vilão Coronel Raimundo Bastos ou José Wilker como José Mundinho, jovem idealista que desafia o poder do coronel sobre a pequena localidade de Ilhéus. Na galeria de atores extraordinários constavam ainda Art Fontoura, Marcos Nanini, Milton Gonçalves, Heloísa Machado, Nívea Maria ou Elisabeth Savala, entre outros.

Também podíamos falar da magnífica banda sonora que acompanhou “Gabriela” ao longo dos 135 episódios. Para além dos já citados Doryval Caymmi e Gal Costa, participavam musicalmente nomes como Maria Bethânia, Djavan, João Bosco, Fafá de Belém ou Alceu Valença.

No Brasil, a censura da Ditadura militar também estava atenta à novela. Numa das mais famosas cenas da trama,o estudante Juca Viana e a jovem Chiquinha, amante do coronel Coreliano eram apanhados na cama e obrigados a sair à rua, nus, empurrados pelos jagunços do coronel e humilhados pela população.

Por imposição da censura, o Diretor Walter Avancini filmou a grande distância os atores. O objectivo era que não se distinguisse se estavam nus.

Apesar disso, “Gabriela” afirmou-se como um marco da dramaturgia brasileira.Foi eleita em 1975 o  melhor programa de televisão pela Associação Paulista de críticos de arte, e foi reposta quatro vezes nos anos 80.

Foi a primeira novela brasileira a ser vendida ao nosso país, estimulando a  relação com a cultura brasileira. Para promover a novela a RTP chegou a organizar um espectáculo com Vinicius de Moraes, Toquinho, Maria Creuza e os atores Elisabeth Savala e Fúlvio Stefanini, que foram recebidos por uma multidão no aeroporto de Lisboa.

O rasto cultural e sociológico de “Gabriela” também se prolongou no cinema. O filme “Gabriela” realizado por Bruno Barreto em 1982,  foi protagonizado por Sónia Braga e pelo ator italiano Marcelo  Mastroianni.

Em 2012, realizou-se uma nova novela “Gabriela” que foi transmitida no Brasil e em Portugal. Com Juliana Paes no papel de Gabriela e um êxito assinalável nos dois países.

“Gabriela” foi muito mais que uma telenovela. Foi uma musa que nos fez descobrir a sensualidade, o prazer, o exotismo, a cidadania, a vida.

Foi a musa luso-brasileira por excelência. A Gabriela que cheirava a cravo e canela, e que nos trouxe a beleza intemporal da Baía imortalizada pela escrita de  Jorge Amado.

Rui Marques

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