Sérgio Godinho : uma vida sob o signo da liberdade

#Seguro2015

Não se pode escrever a história do século XX sem falar dos cantautores, e não podemos falar sobre esta  geração de criadores de canções e utopias sem mencionar o nome de Sérgio Godinho. Entrevistámos o artista e o homem que tem feito da liberdade uma forma de viver e respirar música.

P-O nome deste álbum chama-se Liberdade. A liberdade é muito importante na sua vida profissional e pessoal ?

SG – Representa muito. É uma palavra de toque que está presente ao longo do minha vida e da minha criação, e que tenho procurado cumprir.
Não uma liberdade que seja uma palavra oca, sem sentido. Aliás tenho uma canção onde falo nisso, na necessidade da liberdade nos proporcionar pão, educação ou justiça.
Este Disco, nasceu a partir de um convite do Teatro S. Luís, para fazer um espectáculo que evocasse os quarenta anos do 25 de Abril. Nasceu da convicção de que a liberdade não pode ser uma palavra oca, precisa de ter conteúdo, ser batalhada.

P – Quarenta anos depois: que balanço faz da evolução do país e da música portuguesa ?
SG – Não tinha expectativas porque era difícil imaginar como evoluiria tudo.
Foi um percurso acidentado, com avanços e recuos, o país continua a ter desigualdades em várias áreas, mas o 25 de Abril foi uma data charneira.
Mas não era possível fazer previsões: é a mesma coisa que prever o que acontecerá nos próximos quarenta anos.

P- Combater a censura e a Ditadura foi um desafio para o Sérgio Godinho antes do 25 de Abril ?
SG – Sinceramente não acho que essa tivesse sido a motivação principal para criar. Conheço casos de cantores como o Chico Buarque que desafiaram a Ditadura militar brasileira – e bem, sublinhe-se – mas a música foi uma forma de falar com as pessoas, de expressão através das canções.
O meu primeiro Disco é de 1971 e a música que criava era mais metafórica. As metáforas eram o meio que utilizávamos para contornar a censura.

P – Regressa ao Porto com dois espectáculos no Teatro Rivoli. Como está a encarar este regresso a casa ?

SG – De uma forma muito positiva: tenho uma ligação muito forte ao Rivoli, está no meu ADN .
Vinha a esta sala, com os meus pais, assistir aos Concertos de música clássica, dei o último Concerto antes das obras e o primeiro após a reabertura. Inclusive tenho um Disco chamado “Rivoli” que foi parcialmente gravado no Rivoli.
Unia-me também uma forte amizade com a minha comadre, Isabel Alves Costa, e tive muita pena quando, durante a gestão do Rui Rio, o teatro foi encerrado.

P – Como olha actualmente para a dinâmica cultural da cidade do Porto ?
SG – Eu fiz parte do Conselho Consultivo da Porto 2001, e já nessa altura se começavam a lançar sementes para esta evolução. Estive com grande prazer em vários espectáculos, na Casa da música – ela própria uma consequência do Porto 2001 – e essa pujança foi crescendo, apesar das dificuldades que afectam os artistas em todo o país.
P – Fez parcerias com vários artistas brasileiros. Que recordações tem dessas colaborações ?
SG – São diferentes porque foram em épocas diversas. Com o Caetano Veloso – que conheci nos anos 80 – enviei-lhe duas ou três canções para que ele escolhesse uma e desse voz no Disco ” O irmão do meio – eu sabia que ele ia escolher “Lisboa que amanhece”. Foi mais uma ponte entre sotaques a cantar Lisboa.
Com o Chico Buarque, o Ivan Lins e o Milton Nascimento no “Coincidências” foi também muito frutuoso. É sempre muito interessante porque os artistas portugueses e brasileiros têm uma raiz comum.

P – Quem lhe interessa na música brasileira ?
SG – Não consigo acompanhar tudo o que se faz musicalmente no Brasil. Mas poderia referir os mais consagrados como o Caetano, o Chico Buarque, o Gilberto Gil ou o Milton Nascimento, ou novos valores como o Zeca Baleiro ou o Gabriel o Pensador, com os quais também já trabalhei.
Curiosamente já tive a oportunidade de cantar canções brasileiras no disco “Caríssimas canções” em que cantei clássicos do Chico Buarque, do Caetano, do Pixinguinha, do Noel Rosa, quase todas com sotaque português. Tenho também ligações familiares ao Brasil pelo lado materno : a minha avô materna era brasileira e lembro-me que, sempre que almoçávamos na casa dos meus avós maternos, havia farofa à mesa.

P- Gostava de apresentar este trabalho no Brasil ?
SG – Parece-me muito difícil . O mercado brasileiro está muito virado para o Fado – e essa projecção é méritória – mas falta receptividade do Brasil para outros géneros musicais.
Em teoria claro que gostava de mostrar a minha música no Brasil.

P – O Sérgio Godinho lançou também recentemente um livro de contos “Vida dupla”. A escrita é um prolongamento do seu trabalho como músico?
SG – Pode-se dizer que sim. Eu gosto é de criar – canções, ficções – criar sob os mais diversos aspectos.

P – Que mensagem gostava de enviar aos brasileiros que queiram conhecer melhor este álbum e a música do Sérgio ?

SG – Que este álbum celebra o 25 de Abril num sentido mais amplo, e que se podem identificar com o seu universo criativo. Um universo criativo que tem muitas afinidades com a música brasileira, a nível das frases, do ritmo.

P – A música é liberdade para o Sérgio Godinho ?
SG – É liberdade, criatividade, magia. É sobretudo uma palavra com sentido.

Texto: Rui Marques

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