O Lado Lunar da Moda

lunar

“A moda é um mundo-cão.” Foi com esta afirmação que, há alguns anos atrás, eu e cerca de vinte colegas fomos recebidos na primeira aula da licenciatura em design de moda. Naquela altura, cheio de sonhos e de ilusões, não dei valor àquela frase. Hoje, é uma das minas expressões de eleição.

Para o leigo, que assiste aos desfiles e aos eventos de carpete vermelha, que passeia o olhar pelas belas montras e que, dos criadores e das marcas, só conhece o trabalho final, é fácil deixar-se encantar por um meio em que tudo parece surgir em prol da beleza. O brilho encandeia os olhos, os corpos falam de perfeição. A miséria não existe. O glamour, esse conceito tão abstracto, é rei e senhor. Chamam-lhe arte.

Mas esta imagem dura pouco, assim que se entra na corrente. Tudo parece fácil, mas não é. Fazer uns desenhos bonitos e ter umas ideias interessantes não chega. É preciso trabalhar duro. Mais importante que isso, e num país onde actulmente até para trabalhar num supermercado convém ter uma cunha, dá sempre jeito ter um padrinho já estabelecido na área. Ainda mais necessário, é um amor à moda tão grande que nos permita perder escrúpulos e horas de sono, ser perseverantes e completamente focados. E, às vezes, mesmo com todas estas condicionantes reunidas, chega-se ao fim e percebe-se que a selecção não é assim tão criteriosa: há muito joio no meio do trigo e há muito trigo que ficou para trás.

Para citar o Rui Veloso, “chamemos-lhe apenas o lado lunar.” É a face obscura e difícil que quase todas as coisas boas escondem, o paradoxo que descobrimos em tantas realidades: é arte, mas também é um negócio. Louva a criatividade, mas só aquela  que se submete. Fala de sonhos, mas fecha porta atrás de porta. Produz beleza, mas alimenta-se de fealdade.

Peço desculpa aos devotados pelo meu desencantamento. A minha relação com a moda é de amor-ódio. Se ainda tenho momentos de inspiração febril e de contemplação vibrante, também há alturas em que só quero distância, em que o ambiente e tudo que nele se move me repugna, em que sinto não me encaixar.

Devo admitir que não é fácil escrever esta crónica e nem o faço de ânimo leve. Não é minha intenção desencorajar ninguém, nem desacreditar um universo que, apesar de tudo, admiro. Mas pediram-me para escrever algo mais pessoal sobre o outro lado da moda e se, pelo menos, este meu testemunho servir para preparar alguém para trilhar o caminho que leva ao topo, já terá valido a pena.

Texto: António Granja

 

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