Ilha dos Amores

portooo

Ruas que partem do rio e vão até lá cima, desaguando em praças com tílias e estátuas. Vielas apertadas, casas enormes e vetustas onde tudo já aconteceu, com janelas floridas e a barriga do estuque a dar de si, becos com saída para escadas, escadas debruadas com vasos e bordadas de begónias e japoneiras, escorrendo para pátios estreitos, e mais becos e mais ruas com candeeiros ensombrados. Em tudo, azulejos com barcos e flores e pássaros estilizados, anjos de pedra ou de estanho vigiando jardins discretos, cheios de lódãos e de araucárias elegantes. As camélias marcam o percurso, flores do frio, vermelhas ou azuladas, resistem rente aos muros, fazem a sesta ao pé dos tulipeiros e dos castanheiros da Índia. O empedrado parece sempre húmido, e de facto a neblina espalhou-se desde a manhã até à boca do entardecer. Veio do mar, moldou-se mais esguia nas veias do rio e plasmou-se nos casarões medievos, no granito das encostas, toldando tudo de uma cinzento azulado, frio, que escorre das clarabóias de ferro nos telhados até ás ruas pela via das caleiras ou algerozes.

Monumentos sérios parecem recatados e secretos. Igrejas forradas de dourado e com nichos bizarros na frontaria, irónicos, parecem desaparecer no nevoeiro ou talvez sejam nevoeiro, assim barrocas, assim com diabos e sátiros moldados pelos mestres pedreiros, fantasistas e sonhadores.

Cheira a mar e a peixe e a fumo, o céu parece pedra, ou pintura impressionista melancólica, as nuvens são de bronze macio. Chove oblíquo, o vento norte varre os portais e na Cantareira os barcos recuam, olhando o rio com apreensão cúmplice.

Eis-me na cidade que me pertence, ou eu a ela. Gosto do ar retraído e firme dos edifícios, da dureza de granito das gentes, e do nome das ruas que não homenageiam homens nem datas mas atitudes e gestos: Firmeza, Alegria, Heroísmo, Liberdade. E gosto da luz infinita da Foz, da estrada marginal que une a ribeira ao mar, dos caminhos que vão entre muros de quintas muito antigas, dos miradoiros sobre o rio e o estuário, das pontes, dos socalcos onde os séculos moldaram a cidade como um presépio ou uma cascata de S.João.

O Porto que me prende e ata, o porto sem navio ancorado. Ponto de partida, quem sabe, labirinto da saudade.

 

Bernardino Guimarães

 

 

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