Os Lusíadas, um livro onde se lê Portugal

 

ExifJPEGOs grandes clássicos são aqueles livros que se leem sempre de forma diferente. Ler um livro é como mergulhar num mar de significados, e ” Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões são um livro infinito e nunca acabado.

Há duas epopeias na epopeia que escreveu Camões. Uma é a obra propriamente dita, a outra são as enormes dificuldades que o grande poeta português teve para escrevê-la.

Camões não foi propriamente um bem amado pela coroa. Viveu sem grandes recursos, e o seu espírito rebelde e insubmisso – envolveu-se num duelo em Lisboa, recebendo ordem de prisão- terá precipitado a sua ida para o Oriente à procura da fortuna que lhe era negada na  pátria. Sabe-se que embarcou no Tejo, na frota de Pedro Álvares Cabral, em Março de 1553, passou por Ceuta – onde terá perdido o olho direito num confronto –  e chegou a Goa no ano seguinte.

Alistou-se no exército do vice-rei Dom Afonso de Noronha, e acompanhou o seu sucessor  Dom Pedro de Mascarenhas, combatendo os mouros no mar vermelho. Foi neste período que começou a escrever Os Lusíadas.

Os relatos históricos contam que foi preso no Oriente – desconhece-se  se por dívidas ou textos satíricos que terá escrito sobre a corrupção dos governantes. Em 1561, o novo governador, Dom Francisco Coutinho pobretão  e protege-o, nomeando-o Provedor mor dos defuntos e ausentes em Macau – segundo algumas teses redigiu uma parte significativa da sua obra-prima numa gruta, que ficou associada ao seu nome.

Na viagem de regresso a Goa, o navio em que viajava naufragou e Camões teve de resgatar, literalmente, o manuscrito de “Os Lusíadas” do mar Mekong. Um episódio de um simbolismo profundo, já que o mar é o grande interlocutor do poeta,  no relato da viagem à Índia da frota de Vasco da Gama – este momento foi lembrado por Camões na redondilha “ Sobre rios que sobem”, uma das obras centrais da riquíssima lírica camoniana, tão ou mais rica que a sua inspiradíssima épica.

Resgatado do mar foi-lhe dada  nova ordem de prisão em Malaca.  Voltou a Portugal e, finalmente, conseguiu ver publicada a sua obra em 1572, sob a protecção do rei  D. Sebastião.

Apesar da grandeza intrínseca da obra, os seus ecos silenciaram-se com a perda da independência em 1580. Camões, curiosamente, morre nesse ano, em condições económicas precárias, um sinal do fim de um tempo glorioso do país.

Dos Lusíadas pode-se dizer tudo e não se pode dizer nada. Pode-se dizer tudo porque se trata de uma obra monumental – dez cantos onde Camões transforma a viagem à Índia numa epopeia à altura da Odisseia e da Eneida, as duas grandes epopeias da Antiguidade clássica – e não se pode dizer nada,  já que são tantas as leituras que se podem fazer que nenhuma palavra que se diga pode sintetizar este magnífico texto.

Camões, príncipe dos poetas portugueses, está para além de todos nós. Nenhum ensaio o abarca, nenhum pensador o explica.

É como um daqueles milagres inexplicáveis, daqueles fenómenos da natureza fulgurantes que fascinam os leitores e elevam os povos além de si próprios.

Reler eternamente Camões, relê-lo nos seus múltiplos ângulos , é uma tarefa gigantesca. E “ Os Lusíadas” são esse navio em forma de papel que nos levará como povo  para o Futuro, para um Portugal maior e melhor, um Portugal que se poderá ver integralmente  reflectido no  espelho da História da humanidade   com lúcido  e  justo  orgulho.

 

Rui Marques

 

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Os_Lusíadas

 

 

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