Allex Miranda, um ator que chegou ao seu Porto seguro

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O ator brasileiro Allex Miranda mostra a sua versatilidade na televisão e no Teatro no nosso país. Atualmente, actua na série da RTP na novela “Água de Mar”, além de ter um percurso artístico consolidado em algumas das mais importantes companhias teatrais portuguesas.

Leia esta entrevista com um ator que vê a cidade do Porto como um Porto seguro, onde estudou e cimentou muitas afinidades e ligações.

 P – O Allex  trabalhou tanto  no Brasil como em Portugal . Que semelhanças e diferenças encontrou nos dois países a nível artístico?

AM – Poucas foram as semelhanças encontradas, pois mesmo Portugal sendo o berço da língua portuguesa, a fonética entre os países lusófonos não é tão próxima como julgamos ser,  e muitos foram os trabalhos que não consegui angariar por conta disso.

A energia das contracenas também são completamente diferente da energia do artista brasileiro. Não quero dizer com isso que seja melhor ou pior, apenas saliento que são notórias as diferenças dos trabalhos feitos por artistas de cada país.
Outra gritante diferença é a falta de apoio na área da cultura que Portugal vem sofrendo –ao contrário do Brasil- e isso desestimula o artista que queira vir tentar fulgurar o seu trabalho em terras de além-mar.

P – Que balanço faz do seu percurso profissional e pessoal em Portugal?

AM – Penso que aos poucos o meu trabalho está a ser reconhecido e isso deve-se à minha determinação em querer sempre fazer o (meu) melhor possível nos trabalhos. Aqui em Portugal poucos são os atores negros que conseguiram singrar nesta nossa tempestuosa área teatral, mas com a minha imagem, a figura, a energia transportada na mesma, conjugadas à técnica que obtenho, dá-me vantagens perante outros atores e faz de mim o profissional que hoje sou .

Peço desculpas, mas não gosto de comentar sobre a minha vida pessoal.

P – Que atores ou encenadores portugueses mais admira ?

AM – António Durães, Já tive o prazer de trabalhar com ele e, para mim, é a perfeita junção de um excelente ator e de um extraordinário  encenador, pois este senhor consegue –aos meus olhos- criar com as simplicidades das suas encenações coisas belíssimas, mas dramaturgicamente muito poderosas.

P – Quais são os seus locais de eleição em Portugal?

AM- Gosto particularmente do Palácio de Cristal.

Como sou natural de um interior (Nazaré-Bahia), agrada-me tudo que esteja envolvido pela natureza e ao passear pelos seus jardins, sinto-me engolido pelas árvores, pela melodia das fontes, pelos sons dos animais que também ali transitam e como diz a letra de uma música do cantor Geraldo Azevedo, aquele local me transmite a “paz que eu gosto de ter”.

 P – Que palavras ou termos portugueses  mais o surpreenderam ?

AM- Posso citar a palavra que mais me surpreende: oxalá!

Ouço essa palavra, aqui em Portugal, por diversas vezes e faz-me mesmo muita confusão, por saber que algo tão poderoso possa a ser usado assim dessa forma descuidada. Vou tentar contextualizar a minha admiração: oxalá, aqui em Portugal, com “o” minúsculo, significa uma interjeição que exprime desejo (tomara), mas para mim, que sou do candomblé (religião Afro-Brasileira), a palavra Oxalá, com “O” maiúsculo, representa o orixá ( Umbanda) associado à criação do mundo e da espécie humana e que tenho um profundo respeito.

P –  Trabalha actualmente na novela “ Água de Mar”. Como está a correr essa experiência?

AM – Nesta fase inicial ainda estou a familiarizar-me com toda a estrutura montada para albergar a série, mas fui recebido por toda a equipa –sem exceção- como parte da “família” e isso ajuda-me imenso a desenvolver melhor o meu trabalho. O carinho e os conselhos que recebo a cada novo dia de gravação faz com que o trabalho e as contracenas, com os atores e “figurantes”, sejam desenvolvidas com uma maior cumplicidade e isso para mim é fundamental; um bom ambiente de trabalho.

P – Prefere trabalhar em Teatro ou Televisão ?

AM – Todos temos as nossas preferências, mas acredito que tudo em que me envolvo tem a importância daquele momento e por isso, seria uma falta de respeito para com uma, se elegesse uma entre as duas áreas.

P – Licenciou-se no ESMAE na cidade do Porto. Que memórias guarda do seu tempo de estudante ?

AM – Dos meus muitos “colegas-professores” e de tudo o que aprendi por lá. A ESMAE foi o meu primeiro contacto mais teórico com a arte da representação e que me exigia diariamente muito da pouca energia que tinha, -pois tinha que trabalhar para pagar os meus estudos e muitas vezes fazia diretas antes de algumas aulas práticas-. Mas a minha maior e mais grata lembrança da ESMAE é dos meus colegas, pois criamos uma laço muito forte e como passávamos muito tempo juntos, tornamo-nos numa família (com direito a brigas e tudo) e eu sempre dizia para eles, respeito muito todos os nossos professores, mas eu aprendi muito mais com eles, com tudo de certo e de errado que fazíamos juntos.

P – O que representa para si o Porto ?

AM – Literalmente um Porto seguro.

Tenho os meus contactos de trabalho, um trabalho artístico já reconhecido, os meus amigos, os meus lugares de grandes colóquios, belas casas de espetáculos, “o meu lugar de paz”, os meus professores, meus colegas da faculdade, e muitas, muitas histórias de todas as casas que já morei e de tudo o que já vive por lá.

P – Quais são os espaços culturais que mais gosta de visitar na cidade ? 

AM – As noites de Jazz no Café Concerto da ESMAE, O Café Pinguim, na baixa, onde são promovidas noites de leituras de poesias, O Espaço Compasso e o restaurante Galerias de Paris, onde se come muito bem, pode se deliciar com toda a decoração oriunda de diversos universos pessoais e no fim da note somos contemplados com um belíssimo baile, onde a multiplicidade cultural impera.

P – A Revista Sotaques fala da diversidade dos Sotaques. O seu sotaque é tipicamente baiano ? Como o caracteriza ? 

AM – Não tenho um sotaque típico da Bahia.
Tenho o que pode ser chamado de “sotaque neutro”, pois por conta de trabalhos que desenvolvia em outros estados do Brasil, fiz um trabalho de “limpeza” do sotaque para angariar outros projetos e não me limitei a ser escolhido somente para papéis em que precisavam do sotaque baiano. Hoje, com o novo trabalho que desenvolvo aqui em Portugal sinto que o meu sotaque brasileiro está a sofrer algumas mutações, mas não considero isso um extravio de identidade, vejo como um expandir de horizontes linguísticos. 

P – Qual é o estado atual do Teatro baiano ?

AM – Como estou fora do Brasil há seis anos, o que sei do atual panorama teatral baiano é o que leio nos jornais (online) e confesso que estou meio incrédulo com tudo o que leio, porque uma coisa é saber qual é o estado de um estado e outra coisa é o que lemos sobre este estado, pois muito do que lá está descrito, é exposto de uma forma muito generalista e como eu sou de uma pequena parte da Bahia, sei que esse quadro não nos abrange na totalidade, como está descrito e por isso, não saberia responder –como esses jornais- de forma assertiva por todo um estado, quando só estou ciente de uma parte dele.

O que quero dizer é que o que leio, é que a Bahia está a receber muitos apoios para desenvolver novos projetos teatrais, muitos editais a serem desenvolvidos, e muitos artistas baianos estão a ser consagrados, mas, é sabido que alguns desses tantos projetos são “lançados já com nome de vencedores”, muitos dos artistas baianos têm singrar fora do seu estados por falta de apoio, enquanto os jornais vendem uma ideia utópica e muitos dos editas agora já são direcionados para trabalhos onde constam afrodescendentes, como se nós  negros não tivéssemos a capacidade de ganhar um projeto por conta da nossa arte, agora temos que ganhar algo por ser negros-baianos (…) gerando assim uma nova forma de Apartheid, o Apartheid cultural.

P – O que é que os baianos têm para desenvolver uma cultura tão rica nas múltiplas actividades artísticas ?

AM – Devemos isso ao que se chama hoje de “Colonização”.
Quando Salvador, capital da Bahia e primeira Capital do Brasil Colónia  recebeu a corte real, foi fecundada com todas as correntes artísticas que os seus escravizados traziam para a nossa terra e com o passar do tempo a necessidade tratou de unificar culturas tão distintas na língua, na cultura,  na religião e na sua complexa diversidade como as de Moçambique, Angola,  Guiné, Congo, na nossa cultura miscigenada e tão rica.
P –Devem-se  estimular mais as parcerias entre o teatro português e brasileiro ?

AM – Penso que se deve estimular toda e qualquer forma de arte.

Mas, como estamos neste contexto, sim, penso que ao estreitar ainda mais os laços entre Brasil e Portugal, através do teatro,  estaremos a contribuir para o fortalecimento da língua lusófona, e se o teatro for o fator que culminará nesse acontecimento, a arte lusófona, assim como a língua, será reconhecida como uma  grande força mundial. (…)

 P – Como vai ser a agenda do Allex nos próximos meses?

AM- Para já tenho um contrato com a série “Água de Mar” até Novembro, que é equivalente ao número de episódios encomendados, mas já é de conhecimento geral que a RTP pretende prolongar a longevidade da série, e isso pode ou não alterar o meu cronograma.

António Santos

www.facebook.com/sotaques – O Palco do seu Talento

 

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