Tecno-Orixás, a nova linguagem do  artista plástico Valter Nu

Valter Nu 08

Escultor, investigador e  músico, não há linguagem artística que o brasileiro Valter Nu não fale com fluidez e inovação. A revista Sotaques Brasil/Portugal entrevistou o artista de São Paulo, um pioneiro da técnica escultural dos Tecno-Orixás, que junta tradição e modernidade, e  que deixou um repto aos artistas portugueses: fazer uma ocupação da arte urbana do Brasil e Portugal na Estação do Oriente, em Lisboa.

 

P – O que o inspirou para criar esta colecção de esculturas  “ Tecno Orixás” ? 

VN  -As canções  de musicas brasileiras que falam dos orixás  e foram difundidas como musica pop no  Brasil,  a MPB.

P – Como artista o que é que o seduz nos Orixás e na  MPB  como objectos artísticos?

VN –Nos orixás, eu gosto muito mais das histórias das lendas do que do aspecto religioso, gosto muito de mitologia, por um período estudei a cultura asteca  e maia, depois a mitologia grega e a nórdica, fiquei seduzido  pela cultura yoruba.Esta é a origem  a mitologia dos orixás e,  claro, o  meu primeiro contacto com esta mitologia veio pelos afros sambas, de Bande Pawell, depois as músicas de Clara Nunes, os orixás estão  muito presentes na música de Caetano e Gil, Martinho da vila, Rita ribeiro ( agora Rita Benedito) e  vários outros.

 

P – A questão ecológica está muito presente nestas esculturas ? 

VN – Sim, muito trabalho como artista de artes integradas  aqui em São Paulo, num  projecto cultural da Secretaria de cultura. Discutimos estas coisas durante todo o tempo: a arte e as  suas ramificações, vejo o artista sempre como um visionário, o alguém que pensa para além das questões quotidianas, as questões ambientais são muito importante hoje.

Quando comecei a fazer esculturas, nos anos 90,  queria trabalhar com bronze , depois pedra, e por fim esbarrei na sucata, nos resíduos sólidos que descartámos, então transformei estes resíduos na  minha matéria-prima, não existe  o discurso ecológico no meu trabalho, eu simplesmente uso o descarte do consumo, como matéria prima  para criar o que eu faria com materiais extraídos da natureza, logo não existe um discurso,  existe uma prática.

 

P – Este conceito junta a tradição e a modernidade. Sente-se identificado com essa associação ? 

VN – Sim, acho que toda tradição,  se quiser manter-se viva de alguma forma,  precisa  flirtar com o contemporâneo. No caso da cultura dos orixás,  no Brasil,  ela já chega aqui e  transforma-se para sobreviver, ouve o sincretismo religioso, uma forma da igreja católica atrair os negros para as  suas comunidades.

Eles criaram relações entre orixás  e santos católicos, por exemplo,  santa barbara =iansã, são Jorge =Ogum, e por aí fora.

No caso especifico do meu trabalho,  eu tento trazer os orixás para uma cultura urbana: Ogum é feito de placas de computadores,  é um hacker,  e vem em cima de uma moto para abrir caminhos e guerrear nas ruas de são Paulo; oxumare , o orixá do movimento, a cobra que  se equilibra    num skate, para ser rápida e passar por entre os carros;  Iansã,   a rainha dos ventos, tem um vestidos de hélices de ventiladores;  Iemanjá é feita com autos falantes,  porque na cidade de São Paulo,  as únicas ondas que existem são as ondas sonoras do mar da comunicação.

Estou   a  todo o tempo atribuindo novos significados  aos símbolos dos orixás, dando-lhes novos sentidos  para mantê-los  conectados com a vida urbana.

 

P – É artista plástico e DJ . Como consegue ter um interesse por áreas tão diversificadas ? 

VN – Não acho  que sejam tão diversificadas assim. Eu  trabalho num  projecto na Prefeitura de São Paulo  como artista orientador de artes integradas, ou seja,  a  minha plataforma académica  mistura linguagens.

Gosto desta  mistura   do lugar que tudo conversa, se borra, na minha cabeça,  as coisas estão juntas, eu penso música quando crio as esculturas, estou  a esculpir  musicas, quando  estou a produzir  ou a tocar  também  estou a  esculpir.

O  tecno-orixás só aconteceu porque  eu  sou dj e tinha as músicas na cabeça o tempo todo,  e mesmo  no meu projecto de artes plástica  anterior, o tecno -descartável, as peças eram inspiradas  em canções da mpb, por isso   a ideia  do meu trabalho é sempre musical,  antes de ser qualquer coisa.

 

P – Qual foi a reacção do público a esta instalação artística? 

VN – Foi muito calorosa e  surpreendente.  Quando colocámos a instalação  numa estação de Metro muito movimentada, no centro de São Paulo, tive um certo receio, pois o tema orixás, embora esteja em outro contexto e contemporizado, ainda é  um tema que é muito  tabu no Brasil.

Quando a ideia é religião africana,  torna-se   necessário a não demonizar   o tema, o assunto:  tinha receio de que não fosse bem aceite pelas pessoas, mas foi ao contrário,  as pessoas curtiram,  fotografaram, souberam separar arte de religião, embora quando fui retirar a exposição do último local  em que ela ficou exposta, tinha bilhetinhos  nos orixás com as pessoas a fazer  pedidos;  na Iansã,  tinha uma guia ( colar de contas ), que alguém pôs, os seguranças contam que as pessoas  fazem orações , pedidos, acho bonito,  carinhoso.

 

P – A cultura afro-brasileira está em destaque neste trabalho. Que pesquisa fez para realizá-lo e o que descobriu sobre este universo ?

 VN – Eu pesquisei,  primeiramente,  as lendas Iorubá , e depois comecei  a buscar similaridades entre os orixás e e o mundo urbano.  Também descobri que cada orixá  tinha  os seus elementos, busquei colocar este elemento na confecção do  orixá:  por exemplo,  a Oxum  é uma escultura feita com espelhos  de discos rígidos de laptop, e um dos  seus signos é a beleza e o espelho; para o  Oxossi , usei varias lentes e armações de óculos descartáveis, pois queria fazer uma  alusão aos muitos olhos  que um caçador precisa ter.

O  universo dos orixás é  muito rico, ao analisá–lo, lembra a mitologia greco-romana, com a qual estabelece, algumas vezes , paralelismos, como o facto dos seres divinos demonstrarem atitudes e necessidades humanas. 

 P – Como se define artisticamente ?

 VN – Pergunta difícil. Penso que sou um artista contemporâneo, alguém conectado com as inúmeras possibilidades  e linguagens que o fazer artístico oferece.

Gosto da palavra artista de multilinguagens, mas também  sempre digo que sou só artista, e deixo para as pessoas a liberdade para  me catalogarem.  Nunca consigo cercear minha criação,  então não sei onde ela estará daqui a um mês , um ano, pode ser na música, nas artes visuais, na literatura, no audiovisual, eu flirto com muitas linguagens, sempre foi assim, mas hoje estou mais   artista plástico…

 P – A revista Sotaques Brasil/Portugal  faz,  nesta edição de Agosto, uma abordagem ao movimento modernista brasileiro. Que importância teve este movimento para si ?

VN – O movimento modernista é extremamente importante para quem faz arte no Brasil, não só para mim, porque ele representa o fim da estética clássica  europeia, como matriz artística no Brasil, e o início de  um diálogo com a cultura brasileira.

A semana de arte de 1922,   ecoa até hoje,  na vida do brasileiro:  ela  vai-se desdobrar na Tropicália, depois na vanguarda paulista, dos anos 80, o mangue beat dos 90 , na onda de tropicalismo actual no pais, e  redescobre, na minha geração, ligações com géneros como os  os afro –sambas,  e começa uma relação pop  com a cultura ioruba.

 

P – Gostava de apresentar  este trabalho para Portugal ? 

VN – Claro adoro Portugal,  tenho muito carinho por Portugal.

 

P – Já desenvolveu parcerias com artistas portugueses ?

VN –Apenas numa festa como DJ :em 2007 , estive em Portugal, em Évora,  fazíamos uma festa num bar :  o  capitulo 8. Era uma festa que se chamava 3 vezes português : éramos três  um brasileiro,  eu,  um  português,  o Wiil, e um DJ  de cabo verde, tocámos algumas vezes num  evento ligado à   Universidade, a Queima de fitas, foi bem legal.

 

P – A oralidade está muito presente no conceito destas instalações. Os sotaques e os vários modos de falar são muito importantes para definir a cultura afro-brasileira ?

VN – Sim, totalmente. O  primeiro sopro para criação das esculturas começa quando escuto  músicas que falam  dos orixás, da cultura e do folclore africano,  difundido no Brasil através  das músicas cantadas , e dos vários sotaques.

Os negros  não tinham acesso aos livros:  o Brasil foi o último pais a sair do regime escravocrata, há  pouco mais de 100 anos, então a forma que os negros tinha para se expressarem  era  falar das  lendas do seu povo,  da sua cultura,  era através  das músicas.

Os sotaques são muito importantes no Brasil:  já que existe uma unificação da língua  portuguesa, coisa raríssima de se ver em lugares com dimensões territoriais, como o Brasil, o que define as pessoas,  e as identifica a região do pais de onde vem , é o sotaque.

 

 P – Como definiria o seu sotaque ? 

VN – O meu sotaque é paulista: fui criado no abc paulista e depois vim morar no centro da cidade , vibro  muito o ere, coisa trazida pela cultura italiana para  são Paulo, por outro lado,  existe um xiado na minha fala por conta de ser santista de nascimento,  e ter passado parte da primeira infância em Santos, coisa de quem nasce no litoral,  tanto o  rio de Janeiro como Santos, tem este xiado   na fala…

 

P – Quais são os projecto artísticos em que está a trabalhar actualmente ?

 VN – Estou na segunda fase do tecno-orixás , que são mais quatro 7 esculturas, de tamanhos entre 3m e 1.80m.  Também estamos compondo com o curimba elétrica, o colectivo musical que acompanha a instalação, e estou a escrever  o roteiro para uma mini-serie Web, chamada tecno orixás,  com várias linguagens,  mas tudo gravitando no mesmo tema.

 

P – Como artista brasileiro, que mensagem gostaria de enviar aos artistas plásticos portugueses ? 

VN – Vamos fazer uma ocupação de arte urbana do Brasil e Portugal na Estação do  Oriente!

 

Paulo César

Entre na rede que está a estimular as relações luso-brasileiras –www.facebook.com/sotaqueswww.sotaques.pt

 

Valter Nu 09

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