A Paleta de Cores do Fado

FadoSe perguntarmos aleatoriamente, a quem se cruza connosco na rua, quais são as cores do fado, as respostas serão muito pouco variadas: todas indicarão o preto e algumas mencionarão o vermelho.

A pergunta que me coloquei foi: donde surgiram estas referências cromáticas do fado? Que factor estará na génese desta associação?

Como cor da morte, do pecado, da tristeza, da solidão e da melancolia, é natural e lógico que o preto se veja conectado com um género musical que chora todos esses temas e cujo nome significa precisamente “destino negro”. As tradicionais vestes negras que os fadistas envergam nas suas apresentações serão outra justificação para esta ligação. Todavia, nem sempre assim ocorreu.

Quando o fado surgiu, no séc. XIX, entre pescadores e prostitutas, segundo consta, o preto não era comum no guarda-roupa de quem o cantava e mesmo o usual xaile não era negro, mas colorido (de uso popular em dias de festa) e assim se manteve até aos anos 30 do séc. XX.

O quê (ou quem) levou, então, a que, a partir desta altura, se desse uma alteração tão significativa na imagem do fado e dos seus intérpretes? A resposta é simples: Amália Rodrigues.

Começando a sua longa carreira no final dos anos 30, é com ela que aparece o xaile negro e toda a carga dramática que acompanha hoje este estilo. À semelhança do que Maria Callas fez no canto lírico, Amália subverteu as regras até aí aceites no fado e ousou inovar, imbuindo-o de novas nuances, novos temas, nova intensidade, e uma nova imagem. Tomemos em conta o seguinte excerto dum artigo jornalístico publicado no Newsweek, a 10 de Fevereiro de 1969, de nome “Queen of Sorrows” (Rainha das Tristezas):

«Na semi-obscuridade do palco, apenas a sua pálida beleza luminosa, o seu rosto de maças salientes e boca generosamente ampla aparecem à luz do projector. Quanto ao resto, um vestido de noite negro, de pregas flutuantes, com mangas, que só não lhe esconde as mãos. Não usa nem um anel, nem uma pulseira, nem uns brincos, apenas um enorme alfinete de diamantes, colocado na cintura, que cobre com a mão, quando canta. É a tragédia clássica esculpida na Terra. Antígona depois de Tebas, Cassandra depois de Tróia. (…)»

Além de corroborar o que até aqui foi dito sobre o negro, há uma passagem neste texto que me leva, ainda, a conjecturar a razão pela qual algumas pessoas elegem o vermelho como segunda cor do fado: «boca generosamente ampla».

Claro que devemos ter presentes os aspectos semânticos envolvidos, como o facto de o vermelho ser a cor do amor e do erotismo, ambos patentes no reportório fadista. Mas não será também verdade (e até mais provável) que a “boca generosamente ampla” de Amália, normalmente pintada de encarnado, ficou tão vincada no imaginário popular que tenha contribuído em grande conta no aparecimento do vermelho no universo fadista? Ou será que a saia da figura feminina (supostamente a lendária Severa), do quadro “O Fado” de José Malhoa, ressoa nas nossas mentes como o elemento que mais se destaca na composição?

Perguntas a serem feitas, talvez, aos historiadores do fado. Inegável, porém, é o papel de Amália Rodrigues na imagem actual da canção nacional, em muitas das suas referências e, quem sabe, na sua paleta de cores.

Texto António Granja

http://www.facebook.com/sotaques – Estamos com os nossos artistas

 

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