Ricardo Gordo Inventa um Fado metal

 

14Os novos nomes do Fado têm nome e apelido. Como Ricardo Gordo, um artista que aprendeu com o mestre Custódio Galego,  e que criou um estilo próprio – o Fado metal, nome de um dos seus álbuns e símbolo de um fado aberto ao diálogo permanente com outros géneros musicais

P – O Ricardo  Gordo começou a tocar aos dez anos. Como foram os seus primeiros momentos na música ? 

 

RG – Na verdade, o meu primeiro contacto com um instrumento foi por volta dos 7/8 com um flauta de bisel, de plástico, que usei para tocar melodias simples. Aos 9 anos toquei ao vivo pela primeira vez no palco Timor na Expo 98,  e a sensação foi óptima.

Ter pessoas a apreciar a música que fazia, na altura em conjunto com outros músicos, foi muito bom.

 

P – Teve uma formação ecléctica  ao longo da sua carreira– guitarra portuguesa, blues, rock. O que é que aprendeu em cada género musical?

 

RG –  A ser eclético! Absorver estas influências e técnicas musicais permitiram-me fazer esta fusão que é a minha música hoje. Todos os estilos musicais têm características especiais que podem abrilhantar a execução quando usados em ambientes diferentes.

Por exemplo, usar o fraseado do jazz com a guitarra portuguesa.

 

P –Estudou com o mestre Custódio Castelo guitarra portuguesa. O que mais aprendeu com esta grande figura da música portuguesa ?

 

RG –Estudei e estudo. Aprendi acima de tudo a ser humilde e que a música é uma arte sem fim, em constante evolução. É necessário ter uma mente aberta para poder evoluir e inovar.

 

P – Em 2011, tocou o clássico “ Verdes anos” de Carlos Paredes num filme. Que importância tem esta música para a história da guitarra portuguesa ?

 

RG –Tratou-se de uma peça de teatro. É uma música com um significado político forte.

Carlos Paredes escreveu-a enquanto esteve preso por causa da ditadura. É uma melodia de esperança. Quem é português e pensa em Carlos Paredes, relembra-o com os “Verdes Anos”.

P – O que é que torna a guitarra portuguesa diferente e especial  face a outros  vários instrumentos musicais ?

RG – Segundo Custódio Castelo, é “o instrumento que evoca a saudade”. Pessoalmente, é uma expansão do meu corpo, esta permite-me canalizar as minhas emoções. É difícil não nos apaixonar-mos por este instrumento, a sonoridade é única.

P – A revista Sotaques valoriza o intercâmbio cultural entre o Brasil e Portugal. Gostava de levar este género musical numa digressão ao país irmão ? 

RG – Claro que sim. Um dia espero levar.

P – Que músicos brasileiros admira ? 

RG –  Gosto e respeito muito o Tom Jobim, a obra que ele deixou é maravilhosa. Gosto do misticismo do Raúl Seixas, que a meu ver estava muito à frente para época. Adoro o Yamandu Costa! Tenho pena que ele não seja mais conhecido em Portugal, porque realmente é um executante fora de série.

Por fim, sou um fã acérrimo de Sepultura com Andreas Kisser, Igor e Max Cavalera! Esta é uma das minhas bandas favoritas de Thrash.

P – Divulgar  a  variedade de sotaques portugueses  e brasileiros é uma das missões da nossa revista. Como é que caracteriza o seu sotaque ? 

RG – Português!

P – Gosta de algum sotaque português ou brasileiro em particular ? 

RG – Gosto do sotaque brasileiro do nordeste!

P – Viveu um ano no Porto. Que opinião tem do sotaque portuense e da cultura do Porto ?

RG –  Vivi 4 anos no Porto! Acho o sotaque horrível, mas em compensação têm as raparigas mais bonitas do país.

A cultura é semelhante à do resto do país, pois temos de tudo. Têm uma forte ligação ao futebol, vivem muito o Futebol Clube do Porto.

P – O património musical português está suficientemente promovido. ?

RG – A Amália fez o favor de abrir esse caminho para nós. Apesar de eu achar que a promoção nunca é demais, penso que temos alguma visibilidade lá fora, por parte dos media e de alguns grupos musicais mais conhecidos.

Desde que o Fado foi considerado património mundial, quebraram-se algumas barreiras.

Infelizmente, não há possibilidade para todos os grupos fazerem apresentações lá fora no estrangeiro.

P –Se não está que medidas pensa que se deviam tomar para fazer esta divulgação ? 

RG – Penso que tem a ver com a falta de apoio que existe para grupos novos e mais pequenos. Não há muita gente disposta a investir em projectos que à partida se desconhece se vão ter sucesso ou não.

P – É docente de guitarra portuguesa na Escola Superior de artes aplicadas Castelo Branco. Como classifica as novas gerações que estão a aprender a tocar este instrumento ?

RG –  Continuo a ser aluno da ESART, neste momento no mestrado em guitarra portuguesa. No entanto, enquanto músico, reconheço que há guitarristas novos com muita qualidade, seja no fado, seja noutros estilos. Começa a haver uma certa vontade de levar a guitarra portuguesa para outros estilos e, também uma aceitação da parte das pessoas para a ouvirem noutro contexto que não seja o fado.

P – Quais são as grandes referências musicais de Ricardo Gordo ?

RG –  Muitas! No blues: Stevie Ray Vaughan, Johnny Winter, BB King. No jazz: Birelli Lagrene, Pat Metheny, John Scoffield, Jaco Pastorius. No rock clássico: Jimi Hendrix, Deep Purple, Led Zeppelin, The Doors, Black Sabbath.

No metal: Megadeth, Metallica, Sepultura, Jason Becker. Na guitarra portuguesa: Carlos Paredes, Custódio Castelo, Fontes Rocha. No rock progressivo: Frank Zappa, Pink Floyd, Gentle Giant, Camel, Jethro Tull.

 

P – Depois do aclamado Fado metal, regressou em 2014 com “ Mar deserto”. Como caracteriza este novo  álbum ?

RG – É um disco para mostrar que a guitarra portuguesa pode implementar-se como instrumento solista noutros estilos musicais. Sejam o blues, o jazz, o pop, o metal.

É um álbum cheio de experiências harmónicas e também ao nível das sonoridades. Cheguei mesmo a utilizar efeitos de guitarra eléctrica para explorar novos ambientes. Não se trata de um álbum conceptual, a menos

que o conceito seja usar a guitarra portuguesa em estilos diferentes! Procurei construir um trabalho diferente daquilo que já se conhece, daí não ter gravado nenhum fado tradicional. No geral, estou muito satisfeito com o trabalho.

 P – A guitarra portuguesa é uma parte de si ? Podia viver sem ela ?

RG – Vou utilizar a resposta que lhe dei há pouco noutra pergunta: “é uma expansão do meu corpo, esta permite-me canalizar as minhas emoções.”

 P – Quais são os seus  objectivos musicais  para 2014 ? 

RG –  Promover o novo disco em showcases, tv, rádio e concertos,  e lá para o final do ano começar a pensar no próximo disco.

 

Texto Arlequim Bernardini

 

www.facebook.com/sotaques – Amamos a música portuguesa

 

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