E depois de Abril …

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É uma das músicas da minha vida e julgo que da vida de muitos portugueses. “ E depois do adeus” com letra de José Niza e voz de Paulo de Carvalho, é uma preciosidade que o tempo não corrompeu,  e que continua e emocionar-me sempre que a escuto.

Escrita a partir de uma recolha de trechos de cartas, enviadas pelos soldados mobilizados para a guerra colonial  às mulheres, permanece como um documento histórico intemporal. Não um documento formal, burocrático, mas um sussurro de dor e amor, de homens que sentiam que cada palavra podia ser a última, que escreviam com a sombra da morte a atormentá-los dia após  dia.

E depois do Adeus … depois de Abril, o que ficou ? Faço   essa pergunta muitas vezes.

Antes de mais ficou o fim da mais longa Ditadura europeia do século XX. Mais de quarenta anos de colonização do povo português às mãos de um regime provinciano, que tratava as pessoas como coisas sem valor – o grande ensaísta Eduardo Lourenço usa, com lucidez, a expressão “ aquário asfixiante” para descrever o modo como se vivia durante o Estado novo.

A guerra colonial foi o suicídio do regime, o estertor da mediocridade de um Estado que desprezava a vida dos seus cidadãos. Enviar a juventude de um país para a morte,  em nome de um Império colonial imaginário, que já era uma miragem, foi a prova definitiva de que a primavera marcelista era uma farsa, e que só uma Revolução poderia começar tudo de novo.

E o que falhou nestes últimos quarenta anos de democracia ? Julgo que foram três questões.

A primeira foi a manutenção dos vícios das Instituições portuguesas. Ou seja: mudou-se a lei, redigiu-se uma nova constituição, mas a (de)sorganização do Estado, o autoritarismo e a hierarquização, a falta de espírito democrático, a ausência ou fragilidade da sociedade civil, mantiveram-se como um tumor que deixámos por operar no nosso organismo.

Uma segunda questão é  , inevitavelmente, o capitalismo global. A democracia  entrou em regressão acelerada à medida que o poder do dinheiro se tornou omnipresente – o projecto democrático cedeu a uma oligarquia dominante, que só se preocupa em acumular recursos, destruindo qualquer ideia colectiva de sociedade.

Finalmente, falhou a União Europeia. O euro que não passa de um marco disfarçado e é  incomportável para os países periféricos – Portugal quis estar no pelotão da frente, mas esqueceu-se que os seus recursos eram limitados, agindo  como aquele ciclista que gosta de sprintar mas que se ilude, subindo a alta montanha, e acaba destroçado as etapas.

E depois do adeus … depois de Abril, conquistámos tanto. Mas falhámos tanto ….

Rui Marques

www.facebook.com/sotaques – www.sotaques.pt

 

 

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